Maputo, 8 Set (AIM) – A Universidade Eduardo Mondlane (UEM) privilegia uma investigação científica orientada para a antecipação de problemas, produção de evidências e apresentação de alternativas capazes de apoiar decisões mais informadas.
A afirmação foi feita hoje, em Maputo, pela Vice-Reitora da UEM, Amália Uamusse, durante as celebrações do 50.º aniversário do Centro de Estudos Africanos (CEA), ocasião que considerou propícia para a instituição reflectir sobre a sua missão e o papel da investigação científica na construção de Moçambique.
“Uma universidade comprometida com a investigação não pode limitar-se a produzir conhecimento sobre problemas já conhecidos. Deve ser capaz de antecipar problemas, questionar paradigmas, produzir evidências, propor alternativas e contribuir para decisões mais informadas”, afirmou.
Segundo Uamusse, esta orientação enquadra-se no compromisso assumido pela UEM no seu Plano Estratégico 2018-2028, de se transformar numa “Universidade de Investigação”, colocando a pesquisa no centro da sua missão.
Explicou que esta visão passa pela promoção da interdisciplinaridade, valorização da publicação científica, formação de novas gerações de investigadores e reforço das redes nacionais, regionais e internacionais.
A Vice-Reitora defendeu igualmente que a universidade deve transformar o conhecimento produzido pelas Faculdades, Escolas e Centros em instrumentos de desenvolvimento, considerando o investimento na investigação científica uma prioridade estratégica.
“A UEM deve continuar a defender a ideia de que investir em investigação científica não é uma despesa: é um investimento estratégico na soberania intelectual, no desenvolvimento e no futuro de Moçambique”, sublinhou.
Em relação ao CEA, Uamusse considerou que os seus 50 anos de experiência nas Ciências Sociais e Humanas constituem uma vantagem extraordinária, mas advertiu que esse legado não deve permanecer estático.
Defendeu que o Centro deve continuar a investigar as novas realidades de Moçambique, preservando a sua identidade africana e mantendo-se aberto à diversidade epistemológica e metodológica, bem como ao diálogo com a academia, o Estado, o sector privado, a sociedade civil e as comunidades.
A Vice-Reitora reconheceu, igualmente, os desafios relacionados com o financiamento da investigação, entre os quais a escassez de recursos públicos e a crescente competição pelo financiamento internacional.
Neste contexto, considerou necessário reforçar a mobilização competitiva de recursos e as parcerias, bem como criar condições para garantir investigação de qualidade, continuidade e independência.
CEA deve recuperar dimensão interventiva
Por seu turno, o antigo Reitor da UEM, Narciso Matos, defendeu um CEA mais interventivo e ligado à sociedade, à semelhança do papel que desempenhava nos primeiros anos da sua existência.
Matos recordou que o Centro esteve “por dentro dos acontecimentos da época”, destacando a sua participação, através de estudos e contributos, em momentos importantes da história da África Austral, incluindo as negociações para a independência do Zimbabwe e o Acordo de Incomáti.
Segundo o antigo Reitor, o CEA viveu, nessa fase, uma dinâmica de forte criatividade e produção crítica, associada à liderança de figuras como Ruth First e Aquino de Bragança.
Embora reconhecendo que o Centro mantinha relações com o poder político, Matos considerou que existia uma margem de independência que permitia uma produção científica mais criativa e crítica.
Explicou ainda que a criação do CEA, em 1976, um ano depois da Independência Nacional, fez parte de um processo mais amplo de refundação do Instituto de Investigação de Moçambique, criado em 1951.
Investigação deve responder aos desafios actuais
Já o Director do CEA, Carlos Arnaldo, considerou que uma instituição de investigação não pode viver apenas do seu passado, devendo utilizar a experiência acumulada como ponte entre a memória e o futuro.
Arnaldo defendeu uma investigação capaz de ir além dos fenómenos visíveis, procurando compreender as suas causas estruturais e ouvindo as comunidades para produzir evidências e conhecimento útil.
Sublinhou que uma universidade orientada para a investigação necessita de centros de pesquisa fortes, defendendo que a UEM precisa de um CEA forte, competitivo, inovador e internacionalizado.
Para o responsável, cabe igualmente à liderança da UEM criar condições para o desenvolvimento da investigação, valorizar os investigadores, fortalecer parcerias e assegurar um ambiente institucional favorável à produção científica.
Arnaldo apontou ainda a necessidade de o CEA reforçar a interdisciplinaridade, a dimensão digital, a internacionalização e a proximidade com a sociedade.
As intervenções tiveram lugar no âmbito das celebrações dos 50 anos do CEA, sob o lema “50 Anos do CEA: um olhar sobre o percurso histórico e científico”, que incluíram debates sobre a história da instituição, financiamento da investigação, gestão da pesquisa e o futuro das Ciências Sociais e Humanas em Moçambique.
(AIM)
SNN
