Mpauto, 31 de Agosto (AIM) – O caminho político está aberto para uma nova geração de parcerias económicas entre Brasil e Moçambique.
A visita do Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, a Moçambique, em Novembro de 2025, constituiu um marco no relançamento das relações bilaterais e criou um ambiente favorável para que a histórica aproximação política entre os dois países avance para uma cooperação empresarial mais frutífera, assente em investimento, transferência de tecnologia, industrialização e criação de valor em território moçambicano.
A mensagem ganhou força hoje, no Encontro Empresarial Brasil–Moçambique, realizado no âmbito da FACIM, que juntou empresários, instituições públicas e representantes dos sectores privado e diplomático dos dois países.
Mais do que reafirmar os laços históricos, o encontro colocou sobre a mesa uma questão sobre como transformar cinco décadas de relações diplomáticas numa parceria económica de maior escala e com impacto directo nas duas economias.
A presença brasileira, com mais de 30 empresários, entre empresas e startups ligadas a sectores como saúde, tecnologias de informação, logística portuária, agricultura e agro-indústria, foi apresentada como um sinal concreto de que existe interesse em aprofundar a presença empresarial brasileira em Moçambique.
Para a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), representada pelo seu presidente, Valdemar, o objectivo da missão empresarial vai além da procura de mercados. Os empresários brasileiros pretendem estabelecer parcerias com empresas e cooperativas moçambicanas e identificar projectos capazes de gerar negócios sustentáveis.
Entre as áreas de interesse está a saúde, com destaque para medicamentos e vacinas e para a possibilidade de instalação de unidades de produção em Moçambique. A aposta traduz uma perspectiva de longo prazo.
“em vez de uma relação baseada apenas na exportação de produtos, queremos criar capacidade produtiva local, desenvolver fornecedores e incorporar tecnologia e conhecimento no tecido empresarial moçambicano”, disse.
A ApexBrasil frisou igualmente interesse brasileiro nos chamados minerais críticos, recursos que ganharam importância estratégica na economia mundial devido ao seu papel nas novas tecnologias, na transição energética e na indústria.
A existência desses recursos em Moçambique abre uma frente adicional de cooperação, desde que a exploração seja acompanhada por maior transformação local e criação de valor.
O embaixador de Moçambique no Brasil, Alexandre Manjate, enquadrou a aproximação empresarial no contexto das celebrações dos 50 anos das relações diplomáticas entre os dois países, assinalando que a actual conjuntura oferece uma oportunidade para construir uma nova arquitectura de cooperação económica.
Para Manjate, os empresários brasileiros trazem capital, experiência e conhecimento que podem contribuir para a transformação económica de Moçambique, enquanto o país oferece recursos naturais, capital humano e uma localização estratégica para servir de plataforma de acesso aos mercados da África Austral e do Oceano Índico.
O presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Álvaro Massingue, considerou o encontro empresarial um marco importante numa relação que deve evoluir da afinidade histórica para uma agenda concreta de negócios.
Massingue defendeu uma cooperação assente em joint ventures, produção local, transferência tecnológica, desenvolvimento de fornecedores, formação de capital humano, inovação e exportação. A prioridade, segundo a CTA, não deve ser apenas aumentar o comércio bilateral, mas elevar o conteúdo económico dessa relação.
Na agricultura e agro-indústria, a experiência brasileira surge como uma das áreas de maior potencial. A CTA defende que tecnologias e modelos de produção desenvolvidos no Brasil possam ajudar Moçambique a aumentar a produtividade, reduzir a dependência das importações e criar capacidade de transformação local.
“A ambição é fazer com que Moçambique deixe progressivamente de exportar predominantemente matérias-primas e passe a capturar uma parcela maior do valor acrescentado através da industrialização e transformação dos seus próprios recursos”, disse CTA.
O apelo à industrialização foi reforçado pelo secretário de Estado da Indústria e Comércio, António Grispos, que apresentou os corredores logísticos como uma das maiores vantagens económicas de Moçambique.
Os corredores de Maputo, Beira e Nacala, associados aos portos nacionais, podem funcionar como plataformas de ligação entre Moçambique e os mercados da região, permitindo integrar cadeias de produção e distribuição da África Austral.
Para Grispos, esta posição geográfica deve ser convertida em vantagem económica através de investimento em infra-estruturas, indústria e capacidade produtiva.
O responsável destacou igualmente o potencial energético do país, incluindo os recursos como gás natural da Bacia do Rovuma e outros projectos de geração de energia, como factores que podem sustentar uma nova vaga de industrialização.
A parceria com o Brasil, segundo Grispos, tem uma vantagem adicional, a língua e a proximidade cultural. “O Brasil tem a vantagem de falar a mesma língua e partilhar da mesma cultura, por isso é um parceiro estratégico para nós”, afirmou.
A Agência para a Promoção de Investimento e Exportações de Mocambique (APIEX) colocou o investimento directo no centro da nova agenda bilateral.
A instituição defende que uma cooperação económica mais intensa entre os dois países deve contribuir para acelerar a industrialização, através da estruturação dos corredores logísticos e da digitalização das cadeias produtivas e industriais.
A APIEX destacou ainda as condições oferecidas pelo quadro legal moçambicano para a implementação de iniciativas empresariais, incluindo benefícios fiscais destinados a determinados investimentos, que podem criar condições para ganhos mútuos.
Nesse sentido, os instrumentos institucionais já existentes entre os dois países podem desempenhar um papel relevante. O Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos Moçambique–Brasil e a cooperação entre a ApexBrasil e a APIEX oferecem uma base para facilitar o relacionamento entre investidores, empresas e instituições.
A saúde aparece como outra área com potencial para aprofundar a cooperação empresarial. A instalação de unidades de produção de medicamentos e vacinas em Moçambique permitiria responder a necessidades do mercado nacional e, simultaneamente, criar uma plataforma para abastecer outros mercados africanos.
O potencial vai além da produção farmacêutica. A cooperação poderá abranger tecnologias de saúde, gestão hospitalar, serviços especializados e formação de quadros, criando oportunidades para empresas dos dois países.
Na economia digital, a combinação entre a experiência tecnológica brasileira e o crescente talento jovem moçambicano poderá igualmente gerar soluções adaptadas às necessidades africanas e com potencial de expansão regional.
(AIM)
Paulino Checo
