Sociólogo moçambicano Elísio Macamo (centro)
Maputo, 03 Set (AIM) ‒ O sociólogo moçambicano Elísio Macamo, desafia a juventude a participar na construção do país equilibrando a racionalidade e a razoabilidade na sua actuação.
O sociólogo defendeu a asserção na manhã de terça-feira, (02), em Maputo, durante uma palestra intitulada “Responsabilidade da juventude em tempos de crise”, organizada pela iniciativa “Oficina de Ideias”, com o objectivo de “abordar o papel da juventude na construção da democracia e na resposta aos desafios contemporâneos do país”.
O sociólogo começou por lembrar o infortúnio de segunda-feira (01), quando quatro agentes da polícia alvejaram mortalmente, uma criança de 12 anos. Um dos agentes acabou sendo espancado e queimado vivo pela população, na localidade de Bobole, província de Maputo.
Para o sociólogo, a actuação de ambas as partes, polícia e população, revela o uso da razão, na tentativa de impor a ordem, e de alcançar justiça, mas faltou a razoabilidade.
“Esse episódio mostrou esse desequilíbrio que existe na nossa sociedade, entre ser racional e ser razoável. Nós vimos um agente da polícia a ser racional. Ele tinha a obrigação de fazer cumprir uma regra, fazer cumprir a lei. E ele tem instrumentos para fazer cumprir essa lei”, disse Macamo.
Porém, explicou Macamo, “ele não pensou que “no cumprimento das minhas obrigações como agente policial, não posso disparar num ambiente em que há muita gente”.
Já a actuação da população, segundo Macamo, revela a busca por justiça, decorrente da falta de confiança na actuação da polícia e no sistema de justiça, o que também não foi razoável, para além de desumano.
“Não foi razoável porque [a população] tirou a vida de alguém, mas também tirou o monopólio do uso da violência do Estado, portanto, esvaziar o Estado da sua função como entidade. Mas, também, que a população fez foi-se desumanizar”.
Macamo também defende que o desequilíbrio entre o ser racional e ser razoável domina a política e a vida social dos moçambicanos.
“A razoabilidade é a capacidade de reconhecer que eu vivo com outras pessoas e que eu tenho a obrigação de respeitá-las. Vemos, por exemplo, na nossa política, que, de facto, há muito mais racionalidade do que razoabilidade na forma como nós fazemos política. E isso não se limita apenas aos nossos governantes, à classe política, mas também à forma como muitos de nós, como cidadãos, nos comportamos”.
Avançou que a responsabilidade política da juventude se encontra “na capacidade de ser racional de um lado, e ser razoável do outro lado”.
Advertiu, ainda, sobre os riscos da ética de convicção, sugerindo que a juventude paute pelo seu oposto, no caso, a ética de responsabilidade.
“A ética de convicção é aquela que consiste em colocar os próprios princípios morais acima de tudo, mas, quando nós exagerarmos nisso, começamos a ter problemas porque a ética da convicção faz as pessoas pensarem que os fins justificam todos os meios”.
Citou como exemplo o comportamento da polícia durante as manifestações, utilizando gás lacrimogéneo de forma indiscriminada, e dos manifestantes em relação aos outros.
“Quando alguém bloqueia uma via porque está a reivindicar, aquilo que acha ser o seu direito, que tem toda a legitimidade de reivindicar, não pensa da mesma forma, nos direitos dos outros que está a violar”, disse.
“Então, o oposto da ética da convicção, é a ética da responsabilidade, aquela ética que diz não coloque os fins acima de tudo. Pense nos meios. E esses meios têm a ver com o respeito pelo outro. O grande teste de cidadania é justamente esse. É ter espaço na nossa vida para respeitar os interesses dos outros”.
Macamo adverte ainda que “quem observa a ética da responsabilidade está em melhor situação para fazer o exercício da cidadania”, concluindo com três pontos no que considera responsabilidade da juventude.
A primeira, segundo Macamo, é “cobrar o governo as suas responsabilidades, pois uma sociedade política onde o poder político não é questionado pelo cidadão não é uma comunidade política sã”.
A segunda, de acordo com o palestrante, é o “respeito pelos limites mútuos”, pois “o meu direito não me dá o direito de impedir pessoas de fazerem as suas coisas.
Finalmente, a terceira responsabilidade é construir e não destruir. A nossa responsabilidade é construir um ambiente em que nós podemos conviver de forma sã”.
A iniciativa “Oficina de Ideias” é um espaço de debate público sobre os desafios do sistema político moçambicano, realizado em universidades, escolas, associações e outros fóruns cívicos, um dos instrumentos de acção da iniciativa Manifesto Cidadão, que visa promover cidadania activa, reflexão crítica e a apresentação de soluções para o reforço da democracia em Moçambique.
(AIM)
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