Por: Paulino Checo da AIM, em Bahir Dar
BAHIR DAR, Etiópia, 24 de Outubro (AIM) – O Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, “associou” o surgimento do terrorismo na província de Cabo Delgado, em 2017, à descoberta de grandes reservas de gás natural naquela região, ocorrida em 2016, considerando coincidente a proximidade temporal entre os dois acontecimentos.
O Chefe do Estado moçambicano defendeu, neste contexto, o reforço da cooperação entre os países africanos e do multilateralismo para proteger os recursos naturais e assegurar que estes contribuam para o desenvolvimento dos países detentores.
Chapo falava hoje na cidade etíope de Bahir Dar, onde participa no 12.º Fórum de Tana, como orador do painel de alto nível subordinado ao tema “Construindo um Modelo Africano para a Paz e a Soberania numa Era de Rivalidade Geopolítica”.
O debate contou também com a participação do Presidente do Gana, John Dramani Mahama, e do Vice-Presidente do Quénia, Kithure Kindiki, entre outras individualidades.
“Descobrimos reservas de gás em 2016, em Cabo Delgado, e, na mesma altura em que descobrimos o gás, apareceu o terrorismo em 2017. Portanto, é coincidência demais que, onde há descoberta de recursos, também aparece o terrorismo”, afirmou Chapo, defendendo a união dos países para a protecção dos seus recursos.
O estadista considerou que a disputa internacional por minerais estratégicos, gás e petróleo, num contexto de transição energética e rivalidade geopolítica, exige maior coordenação entre os Estados africanos e as organizações internacionais.
Na sua intervenção, Chapo defendeu igualmente a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de modo a garantir a representação permanente de África e o direito de veto. Segundo afirmou, a ausência do continente nesse órgão condiciona a sua participação nas decisões sobre a paz e a segurança internacionais.
Apelou ainda ao reforço do papel da União Africana, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e de outras organizações regionais na procura de respostas para os conflitos no continente.
Abordando a experiência moçambicana no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, Chapo destacou a cooperação militar regional, a colaboração bilateral com o Ruanda e a coordenação com a Tanzânia, além do envolvimento das forças locais.
O governante agradeceu aos países da SADC que contribuíram para as operações de combate aos grupos terroristas através da missão militar regional SAMIM, sublinhando também a importância da parceria com Kigali na continuidade dos esforços de segurança.
Referiu que as forças tanzanianas posicionadas ao longo da fronteira entre os dois países contribuem para impedir a entrada de terroristas em território moçambicano.
Para Chapo, a experiência de Moçambique demonstra a importância da conjugação de esforços regionais, acordos bilaterais e participação das comunidades locais no combate à violência armada.
Recordou igualmente o percurso histórico do país, marcado por um conflito de desestabilização que se prolongou durante 16 anos, após a independência nacional, em 1975, e que terminou com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1992.
Segundo explicou, essa experiência contribuiu para o desenvolvimento de capacidades nacionais de resposta a situações de conflito, incluindo o envolvimento de forças locais no combate aos grupos terroristas em Cabo Delgado.
Dando o ponto de situação de segurança em Cabo Delgado, partilhou que, no início da insurgência, os atacantes chegaram a ocupar algumas vilas da região norte da província. “Actualmente, essas localidades encontram-se livres da ocupação terrorista, embora persistam ataques esporádicos”, assegurou.
O Chefe do Estado reconheceu que a continuidade das incursões armadas provoca deslocações da população e mantém a necessidade de assistência humanitária às comunidades afectadas.
“A situação agora está relativamente melhor do que estava antes”, declarou.
Apesar dos progressos referidos, a persistência de ataques e deslocações da população mantém-se entre os principais desafios das autoridades moçambicanas.
Chapo reiterou, a necessidade de aprofundar a cooperação entre os países africanos e de reforçar as organizações multilaterais na prevenção e resolução de conflitos, defendendo que a paz e a segurança são condições necessárias para o desenvolvimento sustentável e a melhoria das condições de vida das populações.
À margem do Fórum de Tana, o PR manteve encontros bilaterais com Abiy Ahmed, Primeiro-Ministro da República Democrática Federal da Etiópia, e John Dramani Mahama, Presidente da República do Gana.
Em ambos os encontros, as conversações centraram-se no reforço das relações bilaterais e da cooperação multilateral.
(AIM)
Paulino Checo/
