Maputo, 15 Set (AIM) – Um estudo conduzido pelo Centro de Investigação em Saúde da Manhiça, província meridional de Maputo, em Moçambique, alerta para o aumento do número de casos de hipertensão em mulheres não grávidas moçambicanas e em idade reprodutiva.
Para o efeito, o estudo avaliou um grupo de 1.825 mulheres não grávidas e 6.770 gestantes. O mesmo fez parte do Projecto PRECISE (PREgnancy Care Integrating Translational Science, Everywhere), que abrangeu Moçambique, Gâmbia e Quénia.
Os resultados revelam que 10,4 por cento das moçambicanas não grávidas em idade fértil apresentam hipertensão clinicamente confirmada, uma taxa significativamente superior à registada no Quénia com 4,6 por cento e próxima da observada na Gâmbia com 9,3 por cento.
Discrepância entre a realidade clinica e a percepção individual foi também destaque do estudo, em que apenas 4,2 por cento das mulheres moçambicanas declaram espontaneamente sofrer de hipertensão, quando, na verdade, 17 apresentaram pressão arterial elevada.
“Isto mostra que maioria das mulheres com hipertensão não tem consciência do problema ou nunca recebeu um diagnóstico formal”, explicou a investigadora e líder do estudo no país, Esperança Sevene, citado pelo “Noticias”. .
Sevene aclara ainda que, os resultados mostram ainda que entre as mulheres grávidas o cenário é igualmente preocupante, porque apenas 2,7 por cento das mulheres gestantes moçambicanas relataram ter hipertensão, valor muito inferior ao observado clinicamente.
“O problema é que ainda dependemos de auto relatos em inquéritos nacionais, o que mascara a verdadeira dimensão da hipertensão nas mulheres jovens. É necessário medir a pressão arterial em todas as consultas de saúde materna, para não perdermos a oportunidade de diagnóstico e maneio precoce”, aclarou.
Dados do PRECISE revelam ainda características sociais e de estilo de vida que ajudam a contextualizar os números, sendo que, a maioria das mulheres avaliadas em Moçambique vive em zonas rurais e está envolvida em actividades manuais, sobretudo na agricultura.
Segundo a fonte, estes resultados expõem uma lacuna crítica: os inquéritos de saúde que dependem da memória ou percepção das participantes não captam adequadamente a prevalência real da hipertensão, contudo isso significa que as políticas nacionais podem estar a subestimar um problema de saúde pública crescente.
Em Moçambique, tal como em muitos outros países africanos, a vigilância em saúde pública foi historicamente estruturada para combater doenças infecciosas como o HIV, a malária e a tuberculose. No entanto, as Doenças Não Transmissíveis (DNT), entre elas a hipertensão, diabetes e cancro, estão a emergir como um dos maiores desafios de saúde do século XXI.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a abordagem STEPwise, que combina auto relatos com mediações biomédicas padronizadas de pressão arterial. A adopção deste método permite ao nosso país alinhar-se com as melhores práticas internacionais e identificar precocemente mulheres em risco.
A equipe técnica deste estudo defende que é urgente reforçar o rastreio da hipertensão nos cuidados primários, com espacial atenção às consultas de Planeamento Familiar (PF) e Pré-natal, capacitar os profissionais de saúde para reconhecer e tratar a hipertensão em mulheres jovens.
Defendem ainda, a necessidade de torna-se essencial a integração a prevenção das doenças não transmissíveis nos programas de saúde materna e infantil e intensificar as campanhas de sensibilização dirigidas à população em geral, promovendo a medição regular da pressão arterial.
No território moçambicano, estudos anteriores apontam que cerca de 30 por cento dos adultos podiam ser hipertensos, com tendência crescente sobretudo nas áreas urbanas. Entre as mulheres a situação assume um contorno ainda mais delicado durante a gravidez, a hipertensão pode evoluir para complicações, graves como a pré-eclâmpsia, colocando em risco a vida da mãe do bebé.
(AIM)
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