Raparigas beneficiadas do programa da Plan Internacional que visa promover o empoderamento das raparigas com o lema "Eu Amanhã". Foto de Carlos Júnior
Maputo, 13 Mai (AIM) – Dez raparigas participam desde segunda-feira (12), na segunda fase do programa “Eu amanhã”, uma iniciativa para aprendizagem e empoderamento das raparigas.
As beneficiarias vão criar um espaço onde vão ampliar e fazer ouvir as suas vozes e melhorar o conhecimento em diversas áreas, bem como promover oportunidades de aprendizagem com as pessoas que as inspiram.
As raparigas, provenientes das províncias de Nampula, Inhambane, Cabo Delgado e Zambézia, são membros dos clubes de campeões de mudança que, durante cinco dias, terão a oportunidade de desempenhar papéis de tomadores de decisão a vários níveis.
“Estas raparigas terão a oportunidade de ocupar espaços de liderança, assumindo simbolicamente papéis de tomada de decisão, desafiando normas e inspirando outras raparigas a acreditarem que é possível construir um futuro diferente”, disse esta terça-feira (13), em Maputo, a especialista em Género e Saúde Sexual Reprodutiva na Plan International, Nina Yengo, em conferência de imprensa.
Yengo considera o programa crucial para estimular mudanças sociais lideradas por adolescentes e jovens, “porque acreditamos num mundo em que as raparigas e mulheres jovens, em toda sua diversidade, são igualmente capazes de tomar decisões sobre suas próprias vidas e moldar o mundo ao seu redor”.
Ciente dos desafios que as raparigas enfrentam para o alcance da igualdade de género, direitos e o empoderamento das mesmas, bem como gravidezes precoces e uniões prematuras, Yengo acredita que a promoção de um ambiente onde as raparigas são ouvidas por tomadores de decisão, pode estimular a proactividade e agenciamento das raparigas na luta pelos seus direitos, bem como na divulgação de mensagens sobre os direitos das raparigas.
Aliás, em Moçambique, 53% das raparigas são entregues às uniões prematuras antes dos 18 anos de idade, e 17% unem-se antes dos 15 anos de idade. “As taxas de uniões prematuras são mais elevadas nas zonas rurais, particularmente nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Niassa, Manica e Zambézia”.
Yengo explicou que as elevadas taxas de uniões prematuras devem-se ao facto de, as raparigas estarem inseridas numa sociedade patriarcal, onde estão sujeitas a normas sociais e de género que confinam as mulheres e raparigas ao papel de mãe e cuidadora do lar.
Quanto às gravidezes precoces, referiu que cerca de 40,2% das raparigas dão à luz antes dos 18 anos de idade, e 7,8% antes dos 15 anos de idade. “Em Cabo Delgado, Niassa e Sofala têm taxas mais altas de gravidez precoce do país, seguidas da Zambézia, Nampula e Manica”.
“Em Moçambique, a gravidez precoce ocorre frequentemente no casamento prematuro, onde ocorrem as gravidezes precoces, mas que também, pode ter um efeito inverso”, acrescentou.
Sobre a situação dlas raparigas, a representante da zona norte do país, Leila Dinis, 17 anos de idade, afirmou que “muitas raparigas, em particular da província de Cabo Delgado, são privadas dos seus direitos, a infância, educacao e saúde, devido às uniões prematuras e gravidezes precoces”.
Dinis disse ser crucial a criação e promoção de leis e políticas que protejam as raparigas, para prevenir e combater os principais motivos que impedem a rapariga de gozar em pleno os seus direitos.
Por isso, convida todos os cidadãos à uma reflexão sobre o papel de cada um no fortalecimento de leis e políticas, particularmente no âmbito da sua aplicação, para proteger os direitos das raparigas, bem como promover a igualdade de género.
Por seu turno, a representante da zona centro, Isabel Afonso, 15 anos de idade, lamentou o facto de, muitas meninas enfrentarem desafios sérios, como gravidezes precoces, uniões prematuras e a falta de acesso à educação sobre saúde sexual e reprodutiva.
“Na minha zona é comum ver meninas de 13 ou 14 anos a deixar a escola, porque engravidaram ou foram entregues para o casamento”, frisou.
Já, a representante da zona sul, Mila Ocobote, 18 anos de idade, afirma que “é importante que tenhamos acesso à informações claras sobre saúde sexual e reprodutiva, e capacitações para aprendermos a tomar decisões certas sobre os nossos corpos e as nossas vidas”.
“Muitas vezes, a violência acontece e a vítima não sabe que está sendo privada de alguns direitos. A falta de informação sobre alguns cuidados a ter com a saúde feminina, conversas sem tabus, direitos da rapariga e suas obrigações, tornam muitas meninas vulneráveis, vivendo em ambientes que tiram a sua paz e, ainda assim, não sabem o que realmente estão a vivenciar”, sublinhou.
Por último, a representante do Ministério do Trabalho, Género e Acção Social, Olinda Sidumo, reiterou o compromisso do Governo de continuar a fazer de tudo para garantir que as raparigas, mulheres e crianças usufruam dos seus direitos.
Vale lembrar que Moçambique ocupa o 10º lugar a nível mundial e o 2º na região da África Oriental e Austral em termos de prevalência de uniões prematuras. Segundo dados de 2015, 48% das mulheres entre os 20 e 24 anos já eram casadas antes dos 18 anos, e 14% antes dos 15 anos.
(AIM)
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