Maputo, 21 de Mar (AIM) – Diversas economias africanas enfrentam pressão crescente sobre os seus abastecimentos de combustíveis refinados, com reservas suficientes apenas para algumas semanas, após a guerra com o Irã interromper o tráfego no Estreito de Ormuz.
A situação força governos a procurar alternativas de fornecimento com urgência. Refere Energy Connect, citando Bloomberg.
Cerca de 600 mil barris diários de derivados de petróleo destinados ao continente africano estão ameaçados, devido à redução acentuada da circulação de navios-tanque nesta rota estratégica, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Em alguns países, estas importações representam quase a totalidade do consumo interno.
“Estamos a procurar alternativas de fornecimento em todos os mercados”, afirmou Jacob Mbele, director-geral do Departamento de Recursos Minerais da África do Sul. Segundo ele, apesar da incerteza, há confiança de que o abastecimento será assegurado nas próximas semanas, ainda que a situação permaneça volátil.
A crise expõe fragilidades estruturais do continente. O encerramento de refinarias e o subinvestimento no sector energético deixaram muitos países dependentes de uma única rota comercial. Com a disputa global por combustíveis intensificada, países mais ricos tendem a assegurar fornecimentos oferecendo preços mais elevados, dificultando ainda mais o acesso para economias em desenvolvimento.
Apesar de a África representar cerca de 7% da produção mundial de petróleo bruto, a sua capacidade de refinação diminuiu significativamente nas últimas duas décadas. Apenas recentemente surgiram iniciativas de recuperação, como a nova refinaria inaugurada na Nigéria pelo empresário Aliko Dangote.
A escassez é particularmente preocupante na África Oriental e Austral, regiões que obtêm aproximadamente 75% das suas importações de combustível do Oriente Médio, segundo dados da consultora CITAC. Nestas zonas, as margens de segurança são reduzidas, aumentando o risco de rupturas no abastecimento.
Em Moçambique, o Governo já anunciou que o preço dos combustíveis deverá manter-se inalterado até finais de Abril, apesar da escalada da instabilidade militar no Médio Oriente, que ameaça afectar a oferta global de combustíveis fósseis.
A informação foi avançada há semanas pelo secretário de Estado do Tesouro e Orçamento, Amílcar Tivane, durante o briefing à imprensa realizado após o término da 7ª sessão ordinária do Conselho de Ministros.
Segundo Tivane, o país dispõe actualmente de pouco mais de 85 mil toneladas de combustíveis armazenadas nos terminais oceânicos, volumes considerados suficientes para abastecer o mercado interno até finais de Abril.
“Os preços a que estão a ser transaccionados estes produtos, a gasolina, por exemplo, cerca de 85 meticais por litro, e o gasóleo cerca de 80 meticais, prevalecerão pelo menos até depois do mês de Abril”, afirmou.
No Quênia, que consome cerca de 100 mil barris diários e depende totalmente de importações, a legislação exige reservas mínimas para 21 dias. Ainda assim, a perda de um único carregamento pode causar disrupções significativas. Relatos indicam já sinais de racionamento e escassez em áreas rurais.
Na Etiópia, o governo apelou à utilização racional de combustível, priorizando sectores essenciais. A medida reflecte o receio de agravamento da crise caso o bloqueio se prolongue.
A regulamentação dos preços dos combustíveis em vários países africanos agrava o problema, ao limitar a capacidade de ajustamento do mercado e gerar apreensão entre distribuidores.
No Quênia, o abastecimento é feito através do porto de Mombaça. O país mantém contratos com fornecedores do Golfo, mas a dependência externa torna-o vulnerável. As autoridades não divulgaram prazos concretos para eventuais rupturas.
A África do Sul perdeu cerca de metade da sua capacidade de refinação nos últimos anos, devido a acidentes e falta de investimento. As refinarias restantes cobrem menos de metade da procura interna, estimada em mais de 600 mil barris diários. A situação é agravada pela paralisação temporária de uma importante refinaria na Cidade do Cabo para manutenção.
O país dispõe de cerca de 8 milhões de barris em reservas estratégicas, além de produção parcial a partir de carvão convertida em combustível líquido. Ainda assim, a dependência de importações continua elevada.
No Gana, apesar de ser produtor de petróleo, apenas cerca de um terço da procura interna é satisfeito por produção local. O restante é importado de mercados distantes, incluindo Europa e Médio Oriente. As reservas actuais são suficientes para aproximadamente dois meses, oferecendo algum alívio temporário.
Já a Nigéria apresenta um cenário mais favorável. A nova refinaria de Dangote, com grande capacidade de produção, está a aumentar progressivamente a sua operação. O país encontra-se numa posição relativamente confortável, com capacidade para satisfazer a procura interna e até exportar excedentes. Mantém ainda reservas que lhe conferem maior margem de segurança.
(AIM)
