: Vítimas das cheias tentam salvar seus animais na província de Gaza
Maputo, 25 Jan (AIM) – Quando as águas sobem e a terra desaparece debaixo dos pés, as populações do Baixo Limpopo repetem um gesto ancestral.
Fogem como num êxodo bíblico, levando consigo não ouro nem bens materiais, mas os animais — o verdadeiro tesouro que garante a sobrevivência depois das cheias.
No dia 16 de Janeiro corrente, a Estrada Nacional Número 101 (N101), que liga os distritos da Macia e Chókwè, ambos na província meridional de Gaza, deixou de ser apenas uma rodovia para se transformar num cenário de peregrinação humana e animal.
Tal como o povo de Israel atravessando o deserto a busca da terra prometida, comunidades inteiras de Chókwè, Guijá, Chilembene e zonas vizinhas caminhavam para longe da fúria das águas, fugindo às chuvas intensas e às descargas da albufeira de Massingir, que fizeram transbordar o rio Limpopo e seus afluentes.
Desde a vila do Caniçado, sede distrital de Guijá, passando pelos primeiros bairros de Chókwè até às zonas baixas de Chilembene, homens, mulheres e crianças avançavam lentamente, mas com firmeza, rumo às zonas altas de Chiaquelane, no posto administrativo de Lionde.
Cada passo era pesado, não apenas pela distância, superior a 50 quilómetros, mas pelo drama carregado nos ombros e no coração.
Foi a meio dessa longa caminhada que a reportagem da AIM observou um fenómeno revelador da alma destas comunidades: o seu maior tesouro são os animais.
Como numa Arca de Noé improvisada, o caminho enchia-se de manadas de bois, rebanhos de cabras, galinhas presas em cestos, patos debaixo do braço e até ovos cuidadosamente guardados para serem chocados quando a vida encontrasse novamente chão firme.
Para muitas famílias, tudo pode ser perdido, menos os animais.
Por isso, durante as operações de resgate, muitos sitiados defendiam, com convicção, que os helicópteros de socorro às vítimas deveriam também transportar o seu gado.
Os animais são encarados como banco, celeiro e esperança. São a garantia de que, depois das cheias, ainda haverá leite, carne, ovos e algum rendimento para recomeçar.
Mesmo as famílias que resistiam abandonar as suas casas, apesar dos alertas das autoridades, optaram por salvar primeiro o gado. Em alguns casos, bois e cabras foram colocados sobre os tectos das residências, numa convivência forçada entre homens e animais que clama por um estudo antropológico capaz de explicar tamanha ligação.
Já perto do centro de Chiaquelane, após vários quilómetros percorridos desde Chilembene até ao ponto de acolhimento, uma cena simples condensou toda a tragédia e a ternura deste êxodo.
Uma anciã, de pele curtida pelo tempo e olhos encovados pela idade, viu o seu cabrito tombar no caminho, exausto, sem forças para continuar. Não hesitou.
Tomou o animal ao colo e prosseguiu a marcha. Tal como o pastor bíblico que não abandona a ovelha perdida, aquela idosa recusou-se a deixar para trás o que considera parte da sua própria vida.
Enquanto isso, as cidades de Chókwè e Guijá iam sendo engolidas pelas águas. As chuvas intensas e, sobretudo, as descargas maciças da barragem de Massingir transformaram bairros inteiros em lagoas.
O Instituto Nacional de Gestão do Risco e Desastres (INGD) ordenou a evacuação compulsiva até às 15 horas do mesmo dia, mas o avanço rápido das águas apanhou muitos ainda em zonas de risco.
O drama materializou-se nas primeiras horas da manhã, quando a corrente visível invadiu ruas e casas. As vias transformaram-se em canais, as residências ficaram submersas e a população correu contra o tempo para salvar vidas e bens.
Por volta do meio-dia, a água galgou a ponte que liga Guijá a Chókwè, interrompendo completamente a circulação entre os dois distritos.
O administrador distrital de Guijá, Jaime Mugabe, confirmou que a ponte se encontra totalmente submersa, isolando a vila-sede e agravando a situação humanitária.
Nas artérias principais de Chókwè, camiões sobrelotados transportavam pessoas, animais e os poucos haveres possíveis para zonas mais altas, com destaque para o Centro de Acolhimento de Chiaquelane e centros transitórios no posto administrativo de Lionde.
Ainda assim, muitas famílias permaneceram nas suas casas, algumas recusando-se a sair, chegando ao extremo de se refugiarem nos tectos, divididas entre o medo da água e o apego ao que construíram ao longo de uma vida.
A actividade económica ficou completamente paralisada. Mercados, lojas e serviços encerraram portas. O medo instalou-se entre a população, que revive memórias dolorosas das cheias históricas de 1977 e 2000.
Mas, no meio do caos, há uma certeza que resiste como fé antiga: enquanto conseguirem salvar os seus animais, estas comunidades acreditam que, tal como depois do dilúvio bíblico, a vida voltará a brotar quando as águas baixarem.
(AIM)
Paulino Checo /sg
