Maputo, 31 Jul (AIM\)– Moçambique está a reforçar as acções antecipadas para mitigar os impactos previstos de um evento El Niño de grande intensidade durante a época agrícola 2026/27.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura(FAO), o Programa Mundial para a Alimentação (PMA/WFP) e os seus parceiros defendem uma resposta precoce para proteger as comunidades mais vulneráveis antes do agravamento dos efeitos climáticos.
Segundo uma nota conjunta da FAO e do PMA enviada à AIM, as previsões apontam para condições de seca no Sul e Centro do País, enquanto o Norte poderá enfrentar cheias.
O fenómeno poderá afectar a produção agrícola, a criação de gado, a disponibilidade de água e os meios de subsistência, agravando o risco de fome aguda entre as populações mais vulneráveis.
Numa sessão conjunta de informação realizada em Maputo, parceiros humanitários e de desenvolvimento analisaram formas de apoiar o Governo de Moçambique na protecção das comunidades em risco, da produção alimentar e dos meios de subsistência antes do início da campanha agrícola 2026/27.
O encontro estabeleceu uma ligação entre o recém-lançado Apelo Global Conjunto da FAO e do PMA para Acções Antecipadas face ao El Niño e o Quadro Nacional de Acções Antecipadas de Moçambique.
O objectivo é reforçar a capacidade das instituições nacionais para passarem de uma lógica de resposta aos desastres para uma actuação preventiva, baseada em previsões climáticas e em gatilhos previamente definidos.
Pela primeira vez, a FAO e o PMA lançaram um apelo conjunto de carácter prospectivo para financiar acções antecipadas em grande escala. Na África Austral são necessários 54 milhões de dólares para assistir 2,3 milhões de pessoas em Madagáscar, Malawi, Moçambique e Zimbabwe.
Deste montante, cerca de 42 milhões de dólares continuam por mobilizar.
De acordo com as duas agências, Moçambique encontra-se numa posição favorável para actuar preventivamente graças ao Quadro Nacional de Acções Antecipadas, já operacional, que permite desencadear medidas previamente acordadas com base em previsões climáticas e indicadores de risco.
O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) confirmou, durante o mês de Julho, que os gatilhos para a activação de acções antecipadas foram atingidos em dez distritos do País.
Entre as medidas prioritárias figuram a divulgação de avisos prévios, a distribuição de sementes tolerantes à seca e de outros insumos agrícolas, transferências monetárias antecipadas para famílias em risco, apoio à criação de gado e investimentos na melhoria da captação de água.
Segundo a FAO e o PMA, o quadro nacional permite transformar previsões climáticas em medidas coordenadas, previamente acordadas e lideradas pelas instituições moçambicanas.
Embora as previsões globais reforcem a necessidade de preparação para um El Niño intenso, a activação das intervenções depende de previsões localizadas, dos gatilhos estabelecidos e dos mecanismos nacionais de decisão.
As duas agências sublinharam que actuar antes de os choques climáticos se transformarem em crises humanitárias é essencial. Enquanto a FAO apoia os agricultores e os sistemas de produção alimentar, o PMA presta assistência aos agregados familiares mais vulneráveis para proteger a sua segurança alimentar.
“O período que antecede a principal época de sementeira constitui uma janela crítica para agir.
Com financiamento atempado e flexível, podemos ajudar os agricultores a aceder a sementes e insumos adequados, proteger o gado e os recursos hídricos e manter a produção alimentar antes que os défices de precipitação provoquem perdas irreversíveis”, afirmou o representante da FAO em Moçambique, José Fernández.
O responsável acrescentou que “agir agora custará menos e protegerá muito mais do que responder depois de as culturas falharem e os activos produtivos se perderem”.
Por seu turno, a representante do PMA em Moçambique, Claire Conan, defendeu que “agir antes de um desastre acontecer é mais eficaz, mais digno e mais eficiente em termos de custos do que responder depois de as pessoas perderem os seus bens e meios de subsistência”.
Segundo Conan, o PMA tem apoiado o Governo no desenvolvimento do sistema nacional de Acções Antecipadas, que permite transformar previsões em intervenções precoces. “Com recursos disponíveis, podemos prestar assistência antes do pico das secas e da ocorrência de cheias, ajudando as famílias mais vulneráveis”, afirmou\.
A FAO e o PMA advertiram que o sucesso desta estratégia depende da disponibilização de financiamento flexível e atempado, salientando que cada dólar investido em acção antecipada pode gerar até sete dólares em redução de perdas humanitárias.
As duas agências apelaram, por isso, ao reforço do investimento nos sistemas nacionais de acção antecipada, de modo a permitir que Moçambique esteja melhor preparado para enfrentar os impactos previstos do fenómeno El Niño\.
