Maputo, 05 de Set (AIM) – A arte contemporânea está a consolidar-se como um espaço de aproximação cultural entre Moçambique e Itália, através do projecto MOZITA, iniciativa que promove residências artísticas e o intercâmbio entre criadores dos dois países.
A primeira residência do projecto culminou hoje, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo, com a apresentação da obra “Cacciatori di ruggine”, da artista italiana Camilla Alberti, concebida a partir da sua experiência e pesquisa no contexto moçambicano.
O acto contou com a presença do Embaixador de Itália em Moçambique, Gabriele Annis, representantes da Renco S.p.A., entidade que apoia a iniciativa, e da própria artista.
A obra resulta da primeira residência artística do MOZITA, programa cultural promovido pela Embaixada de Itália e criado em 2025, no quadro das celebrações dos 50 anos das relações de amizade e cooperação entre Moçambique e Itália.
Coordenado por Valentina Ciarallo, o projecto pretende estabelecer uma ponte cultural entre os dois países, através da pesquisa, diálogo e intercâmbio entre diferentes linguagens artísticas e experiências.
Durante a sua permanência em Moçambique, Alberti desenvolveu uma pesquisa ligada ao território e às manifestações culturais locais, tendo trabalhado directamente com artesãos da ASSEMA – Associação de Escultores de Arte Makonde.
A colaboração permitiu à artista conhecer técnicas, materiais e referências associadas à tradição artística Makonde, elementos que posteriormente foram incorporados no processo de criação da obra apresentada em Maputo.
“Cacciatori di ruggine” é uma escultura que combina pau-preto, madeira de particular importância na cultura Makonde, com materiais orgânicos e industriais descartados, transformados em pós, pigmentos e ligantes.
Segundo a artista, a obra é construída em torno de três conceitos: a caça, entendida como uma tensão permanente pela sobrevivência; a ferrugem, associada à metamorfose e à resistência; e o cimento, apresentado como símbolo de estatuto e, simultaneamente, como instrumento de transformação social.
A combinação destes elementos procura atribuir novo significado a materiais considerados sem valor, transformando-os numa narrativa sobre sobrevivência, identidade e capacidade de transformação.
Para Alberti, a residência constituiu uma oportunidade de contacto com uma realidade cultural e social diferente da sua, tendo classificado a experiência como emocionante e desafiante.
“Foi um desafio criar uma obra com esta representação”, afirmou a artista, ao descrever o processo de concepção e execução do trabalho.
Com a apresentação pública, “Cacciatori di ruggine” passa a integrar o património do projecto MOZITA, constituindo um testemunho material do encontro entre a pesquisa artística italiana e a tradição cultural moçambicana.
Concluída a primeira residência, o MOZITA prepara uma nova fase do programa, desta vez na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado, onde o artista italiano Flavio Favelli deverá desenvolver a segunda residência entre Setembro e Outubro de 2026.
Favelli é considerado um dos nomes da arte contemporânea italiana e desenvolve uma pesquisa centrada na memória, nos objectos e nas diferentes camadas culturais que caracterizam os lugares.
Durante a sua permanência em Pemba, o artista deverá desenvolver uma pesquisa sobre o contexto social, cultural e paisagístico da região, estabelecendo contacto com comunidades e tradições locais.
O processo deverá culminar com a criação de uma nova obra, inspirada no diálogo entre a experiência artística de Favelli e a realidade encontrada no território.
A deslocação do projecto de Maputo para Pemba reflecte uma das premissas do MOZITA, que consiste em promover uma criação artística baseada no contacto directo com os territórios e as comunidades, em vez de limitar-se à apresentação de obras produzidas fora do país.
Para o Embaixador de Itália, Gabriele Annis, a componente de intercâmbio constitui uma das dimensões fundamentais do projecto.
“MOZITA deseja reconfirmar também em 2026 a sua natureza de estaleiro cultural, em que a arte contemporânea se torna instrumento de encontro e crescimento partilhado entre Itália e Moçambique”, afirmou.
As residências artísticas procuram, deste modo, criar espaços de experimentação, intercâmbio e aprendizagem, colocando artistas italianos em contacto com criadores, artesãos e comunidades moçambicanas.
A passagem de Camilla Alberti por Maputo e a próxima residência de Flavio Favelli em Pemba permitem ao projecto alargar a sua presença territorial e estabelecer novas ligações através da criação contemporânea.
Entre a madeira, a ferrugem, o cimento, a memória e as tradições locais, o MOZITA procura afirmar a arte como instrumento de diálogo e aproximação entre Moçambique e Itália.
(AIM)
