Maputo, 27 de Set (AIM) – O Governo moçambicano quer transformar o turismo numa indústria capaz de gerar 1 bilião de dolares norte-americanos por ano, elevando a sua contribuição para 7 a 8 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) até 2029, através combinação de investimentos, infra-estruturas e medidas para facilitar negócios e atrair turistas.
A estratégia parte de uma constatação admitida pelo próprio Governo, de que, apesar do enorme potencial turístico de Moçambique, o sector ainda gera apenas entre 230 e 250 milhões de dólares em receitas, valor considerado insuficiente pelo Secretário de Estado para o Turismo, Fredson Bacar, em entrevista à AIM.
“Isso é muito pouco. É muito pouco”, afirmou.
Bacar defende que o potencial do país permite pensar em metas muito superiores. “Eu, o meu sonho é não ter medo de dizer assim, de ter os entregáveis de um milhão de dólares por ano”, disse em entrevista apresentando variações numéricas que fundamentam a ambição.
O desafio colocado pelo Governo é elevar a participação do turismo na economia para 7 a 8 por cento do PIB até 2029. A dimensão actual, contudo, depende da metodologia utilizada para medir a actividade turística.
Segundo Bacar, a Conta Satélite do Turismo, calculada com base no Inquérito de Despesa ao Turista (Indeste), deve ser o mecanismo a ser adptado para medir o impacto do secto. Esta ferramenta procura captar toda a cadeia de valor do sector, desde o transporte, combustível e alojamento até à alimentação, compras e actividades realizadas pelos visitantes.
O inquérito é realizado quatro vezes por ano, nos postos fronteiriços aéreos e terrestres, por uma equipa multissectorial que envolve instituições como o Ministério da Economia e o Banco de Moçambique.
O último exercício citado pelo governante, realizado em 2024, apontou para uma contribuição do turismo perto de 4 por cento do PIB, contrastando com a leitura baseada apenas no Plano Económico e Social (PESOI), que privilegia alojamento e restauração, coloca a contribuição em cerca de 1 a 1,5 por cento, ou menos.
É precisamente esta leitura limitada que, segundo Bacar, pode subestimar o peso real da actividade turística.
De acordo com a fonte, os sinais de crescimento já aparecem no movimento de visitantes. Para 2025, o Secretário de Estado refere, um registo de 1.134.521 turistas, representando um crescimento de 7,9 por cento face a 2024.
Moçambique dispõe actualmente de mais de 3.000 empreendimentos turísticos de alojamento, cerca de 6.000 estabelecimentos de restauração e mais de 450 agências de viagens turísticas. O sector emprega mais de 80 mil trabalhadores.
Para aumentar a capacidade de atracção de turistas e investidores, o Governo está a tentar resolver um dos principais constrangimentos identificados, a falta de infra-estruturas adequadas nos destinos.
Bacar explica que países concorrentes conseguiram preparar os seus destinos com infra-estruturas capazes de atrair grandes cadeias internacionais.
“Não é construir o turismo, mas criar condições infra-estruturais. Não só de infra-estruturas básicas de suporte, mas também em termos de legislação”, afirmou.
Entre os projectos anunciados está a construção de uma cadeia hoteleira do grupo AMAN, no distrito de Massingir, província de Gaza, avaliada em 140 milhões de dólares. Outro investimento, do grupo Senguita, prevê 102 milhões de dólares na zona de Carilane, em Vilankulo, província de Inhambane.
Segundo Bacar, o projecto já tem contrato assinado, visto do Tribunal Administrativo e escritura pública, encontrando-se na fase de mobilização de equipamentos. Foram igualmente emitidos 148 projectos, avaliados em pouco mais de mil milhões de meticais.
A estratégia governamental passa ainda pela concentração de esforços em destinos com maior potencial. Em 2016 foram definidos cinco destinos turísticos prioritários, nemoadamente, Maputo, Gorongosa, Inhambane, Quirimbas e Niassa, com diferentes vocações e ligações a parques nacionais, ilhas e zonas costeiras.
No esforço de desbloquear o sector, ganham peso os projectos Mais Oportunidades e Conecta Negócios, financiados pelo Banco Mundial. Segundo Helsio Azevedo, especialista de Turismo da Unidade de Assistência Técnica do Mais Oportunidades, o projecto actua sobre financiamento, capacitação empresarial, infra-estruturas e internacionalização do sector do turismo.
Segundo a fonte, uma das componentes do projecto, disponibiliza linhas de crédito através de um Fundo de Garantia Mutuária, permitindo ao sector privado aceder a financiamento bancário com mecanismos de redução de risco. Outra prevê subvenções para empresas das províncias de centro e sul, destinadas à expansão dos negócios, criação de emprego, marketing e conquista de novos mercados.
No quadro do FCID, está aberta a VIII Janela, que abrange as províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica e Zambézia, com um orçamento de 17 milhões de dólares, destinado ao financiamento de empresas com potencial para gerar resultados verificáveis em termos de emprego, rendimento, produtividade e inclusão económica.
O projecto prevê ainda a formação de 1250 empresas em gestão, marketing, contabilidade, organização financeira, vendas, serviços e internacionalização, com alcance nacional.
Na Província de Inhambane, apontada como capital do turismo, estão previstas intervenções de última milha, incluindo melhorias em vários quilômetros da orla marítima local, para promover turismo de lazer e segurança, além da reabilitação de várias outras infra-estruturas identificadas para acelerar o turismo.
A visão deverá ser ampliada pelo MozTurism, programa previsto para ser financiado pelo Banco Mundial a partir de 2027, caso seja aprovado. “O programa poderá financiar intervenções estruturantes e integrar pequenos negócios e investimento privado”, disse Helsio Azevedo em entrevista à AIM.
Azevedo, destacou no reforço da Escola Superior de Hotelaria e Turismo de Inhambane, através de um centro de empreendedorismo e formação, bem como intervenções em Vilankulo e outras zonas com potencial turístico.
Lembrou que, foi nessa visão que o projecto está a potenciar Agência Nacional para o Desenvolvimento e Investimento Turístico (Adintur), através de uma série de acções para transformar a instituição num verdadeiro motor de promoção do turismo nacional.
Os projectos financiados pelo Banco Mundial, estão na linha da frente no apoio à elaboração da Estratégia Nacional do Turismo e a recém aprovada Estratégia do Turismo de Negócios (MICE), instrumento que pode ajudar a captar mais de 300 milhoes de dolares em receita.
(AIM)
Paulino Checo/
