Membros da RENAMO contestam presença da UIR nas instalações do partido
Maputo, 2 de Out (AIM) – Membros da RENAMO, contestam a presença da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) nas instalações do partido, defendendo a retirada da força policial como condição para o diálogo e para a resolução das divergências internas que há meses dividem a segunda principal força da oposição em Moçambique.
A posição foi apresentada hoje, em Maputo, pelo coordenador da Comissão de Gestão da RENAMO, Edgar Silva, durante uma conferência de imprensa convocada para anunciar as festividades do 4 de Outubro, Dia da Paz e Reconciliação Nacional, e manifestar o repúdio do grupo à presença da UIR nas instalações do partido.
Segundo Edgar Silva, a presença da força policial em diferentes sedes da RENAMO cria constrangimentos ao funcionamento normal das actividades partidárias e dificulta a aproximação entre os sectores que disputam o controlo da formação política.
“Não tomámos as sedes para vandalizar nada, estamos aqui a contestar a direcção dele”, afirmou, numa referência ao presidente da RENAMO, Ossufo Momade.
O dirigente da Comissão de Gestão defendeu que os membros contestatários pretendem estabelecer um diálogo directo com a liderança do partido para encontrar uma saída para a crise interna.
A contestação ocorre num período de fortes divisões internas na RENAMO, que se agravaram na sequência das eleições gerais de 2024 e da disputa em torno da liderança de Ossufo Momade.
Sectores do partido têm vindo a questionar a condução da formação política e a exigir mudanças na liderança, bem como a realização de reuniões dos órgãos internos para discutir o futuro do partido e fazer o balanço do desempenho eleitoral.
A crise também se manifesta através de disputas pelo controlo das instalações do partido e de confrontos entre diferentes grupos internos, num cenário que tem dificultado o funcionamento regular da organização.
Os sectores contestatários defendem o afastamento de Ossufo Momade, argumentando que uma mudança na liderança poderia abrir espaço para a reunificação das diferentes correntes da RENAMO.
“A RENAMO está a afundar e nós chamamos a atenção para que isto não volte a acontecer. A família RENAMO tem que se unir”, afirmou Edgar Silva.
Edgar Silva recordou igualmente um episódio ocorrido em 2025, quando membros do grupo se concentraram na sede nacional da RENAMO, em Maputo, para exigir um encontro com a direcção do partido.
De acordo com o dirigente, a concentração foi dispersa pela Polícia, que teria recorrido a gás lacrimogéneo e disparos.
“Não estávamos armados, mas vieram, escorraçaram-nos com balas de verdade, com gás lacrimogéneo, chegaram a ferir colegas nossos”, afirmou, alegando que alguns membros sofreram lesões graves.
As alegações apresentadas por Edgar Silva foram feitas durante a conferência de imprensa e não foram, no momento, acompanhadas de uma posição da Polícia ou da direcção da RENAMO sobre os factos relatados.
Além da contestação à liderança de Ossufo Momade, os membros defendem a realização de um balanço interno das últimas eleições para determinar as causas dos resultados obtidos pela RENAMO e apurar responsabilidades.
“Vamos solicitar balanço para acharmos os culpados, responsabilizarmos as pessoas pelo descalabro que tivemos”, disse Edgar Silva.
Para o grupo, a avaliação do desempenho eleitoral deverá fazer parte de um processo mais amplo de reorganização interna, que permita identificar os problemas que afectam o partido e estabelecer condições para a sua reunificação.
A realização do balanço e a abertura de um processo de diálogo são apresentadas como medidas necessárias para ultrapassar a actual crise e recuperar a coesão interna da formação política.
A contestação foi apresentada no contexto das celebrações do 4 de Outubro, Dia da Paz e Reconciliação Nacional, data que assinala a assinatura do Acordo Geral de Paz de Roma, em 1992.
O acordo foi assinado pelo Governo de Moçambique e pela RENAMO, colocando formalmente fim a 16 anos de guerra civil e abrindo caminho para a transição para o sistema multipartidário. As primeiras eleições multipartidárias do país realizaram-se em 1994.
Ao evocar o processo de paz, os membros contestatários defendem que o mesmo princípio de diálogo que permitiu pôr fim ao conflito armado deve continuar a orientar a resolução das actuais divergências políticas.
Para Edgar Silva, a prioridade passa agora por evitar o agravamento das divisões e criar condições para que as diferentes correntes da RENAMO encontrem uma plataforma comum.
A retirada da UIR das instalações do partido é, segundo o grupo, uma das condições para facilitar esse processo e permitir que as divergências sejam tratadas no âmbito dos mecanismos políticos internos da RENAMO.
(AIM)
Hélia Nhanengue/pc
