Vítimas das inundações acolhidas num centro de acolhimento na província de Maputo. Foto arquivo de Carlos Júnior
Boane (Moçambique), 25 Jan (AIM) – Mães lactantes acolhidas no Centro Filipe Samuel Magaia, instalado na Escola Básica 19 de Outubro, no distrito de Boane, província de Maputo, queixam-se de fome e de falta de alimentação adequada para garantir a amamentação dos seus filhos.
O grito de socorro foi lançado sábado pelas mulheres provenientes do bairro 25 de Setembro, reassentadas naquele centro na sequência das inundações provocadas pelas chuvas intensas que afectaram a cidade e província de Maputo.
Em contacto estabelecido com a AIM, as mães relataram que, em alguns dias, chegam ao meio-dia sem terem tomado qualquer refeição.
“Hoje ainda não tomámos o pequeno-almoço desde a manhã. Estamos com fome e estamos a amamentar. Esta mãe, por exemplo, tem gémeos, mas os bebés choram de fome porque, para termos leite, precisamos de comer. Pedimos também fraldas descartáveis, porque há dias em que não nos dão, nem leite para os bebés”, lamentou Paula Alberto.
Na mesma linha, Teresa Crisalda apelou ao reforço da alimentação no centro, sublinhando as necessidades específicas das mães em período de amamentação.
“Precisamos de leite para bebé, porque o leite que temos não é suficiente. Não nos alimentamos como deve ser e isso afecta a amamentação”, afirmou.
Para além das dificuldades alimentares, as mães manifestaram preocupação com o futuro escolar dos seus filhos, apelando ao apoio das autoridades e parceiros, uma vez que perderam todos os bens durante as cheias.
“Perdemos tudo nas nossas casas. Não temos dinheiro para matrícula, inscrição nem material escolar. Temos crianças na primária e na secundária e não temos condições para comprar cadernos, uniformes e outros materiais. Saímos de casa sem nada e, por isso, estamos a pedir ajuda”, apelou Paula Alberto.
Entretanto, alguns idosos acolhidos no mesmo centro apresentam uma percepção diferente, afirmando que a alimentação tem sido fornecida, embora, por vezes, com atraso.
“A comida chega, mas o que atrasa é o pequeno-almoço. Às vezes a lenha chega tarde ou não chega. Hoje, por exemplo, ainda não tivemos pequeno-almoço porque não havia água, mas já entraram dois camiões de abastecimento”, explicou Armando, um dos idosos.
O mesmo acrescentou que a quantidade de acompanhamento alimentar deveria ser reforçada. “Pedimos que coloquem mais caril na comida para ficarmos fortes, sobretudo porque alguns de nós estamos a tomar medicamentos, e comer sem acompanhamento pode prejudicar a saúde”, disse.
Por sua vez, a chefe do Centro de Acolhimento Filipe Samuel Magaia, Maria Mandlate, afirmou que, apesar dos constrangimentos, a situação sanitária no local é considerada estável.
“Tratando-se de um número elevado de pessoas, já estaríamos a registar surtos de doenças como cólera, diarreias ou malária, mas não é o caso”, referiu.
Questionada sobre a denúncia de que algumas mães com bebés não tinham comido até ao início da tarde, Mandlate confirmou a situação, explicando que se deveu a um desentendimento pontual de natureza organizativa.
“Temos comunidades que auxiliam no acampamento e a população deslocada por causa da emergência. Em alguns momentos surgem pequenos conflitos, mas optamos sempre pelo diálogo para identificar falhas e corrigi-las”, esclareceu.
O centro acolhe actualmente 1.440 pessoas, organizadas em 430 famílias, número que tende a reduzir à medida que algumas famílias começam a regressar às suas zonas de origem.
(AIM)
Fernanda da Gama (FG) /g
