Maputo, 10 de Dez (AIM) – A comunicação sobre doenças zoonóticas no distrito de Massingir, província de Gaza, ganhou uma nova força com o projecto Ciência, Arte e Sociedade Comunicando Sobre One Health (CASCOH), que recorre ao teatro comunitário como ferramenta central para sensibilizar as populações.
Em plena zona de conservação transfronteiriça, no Parque Nacional do Limpopo, onde a convivência entre pessoas, animais domésticos e fauna selvagem cria riscos constantes, a iniciativa mostrou que as mensagens de saúde são mais eficazes quando transmitidas pela voz da própria comunidade.
“Comunicar a One Health através de espectáculos de teatro é um dos melhores métodos para reforçar a compreensão das comunidades sobre as doenças zoonóticas em Massingir”, afirmou o coordenador do projecto, Carlos Cuinhane, docente e investigador da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em entrevista á AIM.
A abordagem rompe com os modelos tradicionais baseados em panfletos, cartazes e mensagens produzidas no gabinete, frequentemente incapazes de dialogar com a realidade local.
Segundo a fonte, trata-se de um projecto que nasce da ciência, cresce com a arte e vive da comunidade, Integrado no programa COHESA, voltado ao reforço de capacidades em One Health na África Austral, o CASCOH promove uma inovação comunicacional assente na co-criação.
Explicando a iniciativa, referiu que o processo começou com uma investigação aprofundada nas comunidades de Massingir sobre práticas de saúde humana, animal e ambiental. Essa informação serviu de base para a construção de uma peça de teatro concebida em conjunto com o Grupo Estrela da Tilápia de Massingir, composto por jovens artistas locais.
“A mensagem e a sensibilização sobre One Health foram produzidas pelas próprias comunidades, nós apenas colhemos e harmonizámos os dados”, explicou Cuinhane, acrescentando que, a peça foi desenvolvida com apoio técnico do Centro Cultural Franco-Moçambicano, responsável pelo reforço das capacidades do grupo teatral, e resultou numa encenação baseada no “teatro do oprimido”, modelo participativo que estimula reflexão e mudança social.
O espectáculo foi apresentado em quatro localidades, uma comunidade dentro do Parque Nacional do Limpopo, duas na zona tampão e uma fora da área de conservação e em apenas uma primeira ronda, o projecto alcançou mais de dois mil pessoas, incluindo líderes comunitários, religiosos, professores, alunos e profissionais de saúde.
Segundo a fonte, as mensagens da peça incidem nas principais doenças zoonóticas que afectam a região, a raiva e a tuberculose bovina. Segundo Cuinhane, a comunidade não tinha conhecimento de que os gatos também podem transmitir a raiva, e muitas famílias resistiam à vacinação dos cães por crenças culturais.
“No caso da tuberculose bovina, comum em muitas comunidades, a proximidade entre o gado e os búfalos do parque aumenta o risco de transmissão. “Se a carne é consumida sem inspecção, os seres humanos correm o risco de contrair a doença”, alertou o investigador.
Assegurou que graças à mobilização gerada pelas encenações, houve aumento da procura e disponibilidade de vacinas contra a raiva no distrito. As comunidades passaram a reconhecer o seu papel activo na prevenção, e reforçou-se a articulação com o governo local e o Parque Nacional do Limpopo.
O projecto é implementado pela Universidade Eduardo Mondlane, através da Faculdade de Letras e Ciências Sociais e do Centro de Biotecnologia, financiamento assegurado pelo Instituto de Investigação do Gado, com verbas da União Europeia, e conta ainda com o apoio do CIRAD (França), do Instituto Nacional de Saúde, do COHESA e do Governo do Distrito de Massingir.
(AIM)
Paulino Checo
