Carregamento de gas natural na bacia do Rovuma, província de Cabo Delgado em Moçambique, do empreendimento Coral Sul
Maputo, 17 de Set (AIM) – A petroquímica italiana Eni prevê canalizar até três biliões de dólares norte-americanos para empresas moçambicanas no âmbito do conteúdo local associado ao projecto Coral Norte, ao mesmo tempo que avança com os preparativos para a construção de uma terceira plataforma flutuante de gás natural liquefeito (FLNG).
A terceira plataforma terá capacidade prevista de até seis milhões de toneladas por ano.
O anúncio foi feito por Fabrizio Russo, Director de Contratos e Procurement da Eni Moçambique, numa entrevista à AIM, à margem da FACIM, onde apresentou as principais linhas de actuação da multinacional italiana no país e o impacto que os seus projectos poderão ter nas empresas nacionais.
“A Eni declarou ate 3 bilhões de dólares só para o Conteúdo local.
Este é o programa e esta Tudo assegurado. No crono programa de realização do projecto esta acautelado esse valor para as empresas”, disse Fabrizio.
Segundo Russo, os cerca de 3 biliões de dólares destinados ao conteúdo local já estão previstos no cronograma de execução do Coral Norte. A aposta não passa apenas por adjudicar contratos, mas por criar condições para que mais empresas moçambicanas consigam entrar na cadeia de fornecimento da indústria de gás.
“Coral Norte atinge 70% e prepara produção para 2028
A Eni já produz gás natural liquefeito em Moçambique desde 2022, através do Coral Sul FLNG, uma plataforma flutuante instalada em águas profundas, a cerca de 2.000 metros”, avançou a fonte.
Segundo a fonte da ENI, a experiência, que inicialmente levantou dúvidas devido às condições meteorológicas e oceânicas da região, acabou por demonstrar a viabilidade da exploração de gás através de uma unidade flutuante em águas profundas e agora, a empresa prepara a entrada em operação do Coral Norte.
De acordo com Fabrizio Russo, o Coral Norte será uma versão melhorada da primeira unidade, com maior produção e recurso a tecnologia mais avançada. Com a entrada em operação da nova plataforma, Moçambique deverá aumentar a sua capacidade de produção e exportação de GNL, passando, segundo os dados apresentados por Russo, de cerca de 3,5 para 7 por cento da produção mundial de GNL.
A expectativa da Eni é que, com o Coral Norte e outros projectos, Moçambique se torne um dos principais produtores e exportadores de GNL da África Subsaariana.
Russo revelou que a terceira unidade será maior do que o Coral Sul e o Coral Norte.
“Não será simplesmente uma cópia das duas primeiras plataformas e deverá atingir uma capacidade de produção de até seis milhões de toneladas de GNL por ano”, garantiu.
A dimensão do projecto coloca a terceira FLNG como uma nova etapa na expansão da presença da Eni no sector do gás moçambicano.
A empresa está, assim, a trabalhar em três frentes, nomeadamente, manter a produção do Coral Sul, concluir o Coral Norte e preparar o caminho para uma terceira unidade de maior capacidade.
É, contudo, no conteúdo local que a Eni diz estar a adoptar uma abordagem diferente. Russo recordou que, no ano passado, a empresa lançou a iniciativa Open Day, destinada a aproximar directamente a Eni das empresas moçambicanas.
“Em vez de grandes encontros onde muitas empresas têm pouco espaço para apresentar as suas capacidades, a Eni abre a possibilidade de reuniões individuais.
Nessas reuniões, as empresas apresentam quem são, o que conseguem fazer e quais os serviços que podem prestar. Do outro lado, a Eni explica as suas necessidades e procura identificar oportunidades de colaboração”, vincou.
O resultado, segundo Russo, tem superado às expectativas.
Mais de 470 empresas participaram na iniciativa num ano, sendo que mais de 300 eram empresas moçambicanas que a Eni ainda não conhecia.
“Descobrimos o que elas podiam fazer”, explicou o responsável.
Esse conhecimento, segundo Russo, também levou a Eni a rever alguns dos seus requisitos de contratação.
Um dos exemplos apresentados é a certificação ISO 9000. Para determinados concursos, a certificação deixou de ser uma condição obrigatória para uma empresa poder participar.
A empresa pode demonstrar que possui um sistema de gestão adequado e que cumpre os requisitos de saúde, segurança e ambiente, sem necessariamente apresentar aquela certificação.
A mudança procura abrir espaço para empresas nacionais que possuem capacidade técnica e operacional, mas que ainda não conseguiram cumprir todos os requisitos formais normalmente exigidos por grandes multinacionais.
A Eni está igualmente a adoptar o chamado multiple contract award, sobretudo para serviços não especializados.
Serviços como limpeza, transporte, manutenção de instalações e outras necessidades corporativas podem, em vez de serem concentrados num único fornecedor, ser distribuídos por vários contratos.
A lógica é aumentar o número de empresas que podem participar e criar oportunidades concretas para fornecedores moçambicanos.
A aposta não se limita aos serviços considerados não especializados.
Segundo Russo, a Eni já vinha a utilizar uma metodologia própria para medir o conteúdo local nos concursos ligados a serviços especializados, incluindo áreas como perfuração e manutenção.
Com a publicação da legislação sobre conteúdo local em 2026, a empresa verificou que a sua metodologia estava, em grande medida, alinhada com o novo quadro legal.
Um dos elementos destacados por Russo é a participação de pelo menos 20 por cento de uma empresa ou cidadão moçambicano para que uma entidade possa ser considerada elegível para determinados benefícios associados ao conteúdo local.
Com o Coral Norte em construção, uma terceira FLNG em preparação e uma cadeia de fornecimento que a Eni pretende ampliar, o desafio passa agora por transformar os grandes investimentos no sector do gás em oportunidades duradouras para as empresas nacionais.
A Eni diz estar preparada para colocar recursos significativos nesse processo.
(AIM)
Paulino Checo
