Obras de construção da Central Térmica de Temane (CTT)
Maputo, 17 de Setembro (AIM) – O Governo decidiu resgatar o projecto da Central Térmica de Temane (CTT), depois de sucessivos atrasos, impasses contratuais, danos provocados por ciclones e paralisação das obras.
O Conselho de Ministros aprovou esta semana uma Resolução que estabelece o Pacote de Concessões e Medidas de Resgate do Projecto da CTT, criando condições para a mobilização dos recursos adicionais necessários à retoma e conclusão da construção.
A decisão constitui um novo esforço do Governo para desbloquear um projecto considerado estratégico para o reforço da capacidade energética nacional e para a consolidação de Moçambique como fornecedor regional de electricidade.
A CTT foi concebida para produzir 450 megawatts (MW) de energia eléctrica, através de uma central de ciclo combinado alimentada a gás natural. O empreendimento deveria ter sido comissionado em 2024, mas a meta foi sucessivamente adiada para 2025 e, posteriormente, para Fevereiro de 2026.
Nenhum destes prazos foi cumprido.
Lançado em 2022, no âmbito do Projecto Integrado de Gás e Energia de Temane, o empreendimento foi apresentado pelo então Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, como símbolo da nova era de aproveitamento do gás natural moçambicano e de uma matriz energética mais moderna.
O complexo incluía, além da central térmica, uma unidade de produção de gás de petróleo liquefeito (GPL) e uma linha de transporte de energia com 563 quilómetros, ligando Temane a Maputo.
O projecto estava integrado no Contrato de Partilha de Produção (PSA) envolvendo o Governo, a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) e a Sasol, prevendo igualmente a produção anual de cerca de 23 milhões de gigajoules de gás natural, 30 mil toneladas de GPL e aproximadamente quatro mil barris diários de petróleo leve.
A Linha de Transporte de Temane-Maputo, avaliada em cerca de 500 milhões de dólares, deveria constituir a primeira fase da futura espinha dorsal do sistema nacional de transporte de energia em alta tensão, apoiando a expansão da electrificação, agricultura, mineração e integração energética.
Quando as obras arrancaram oficialmente, em 2022, Daniel Chapo era Governador da Província de Inhambane e classificou o projecto como determinante para a transformação económica provincial e nacional.
Entretanto, a execução foi marcada por sucessivos constrangimentos. Os ciclones Freddy e Filipo provocaram inundações no estaleiro, afectando a logística e o ritmo dos trabalhos.
Posteriormente, surgiu um impasse contratual entre a CTT e a empresa espanhola TSK, responsável pelo contrato EPC, que culminou na interrupção e abandono da empreitada quando, segundo informações divulgadas, a execução física rondava 80 por cento.
Para desbloquear a situação, foi contratada a empresa turca ENKA, encarregada de concluir o empreendimento.
Já como Presidente da República, Chapo confirmou que as obras permaneciam suspensas devido a problemas acumulados, incluindo a destruição de duas turbinas durante a passagem de um ciclone. A reposição dos equipamentos exige a fabricação de novas unidades pela Siemens, na Alemanha.
Segundo Chapo, o fabrico das turbinas poderá levar cerca de dois anos, acrescentando pressão a um calendário já sucessivamente revisto.
A estes problemas juntam-se a renegociação dos contratos de construção e a necessidade de recursos adicionais para concluir o projecto.
Neste contexto a decisão do Conselho de Ministros ganha particular importância. O pacote aprovado procura criar condições para a retoma dos trabalhos e conclusão da central, retirando o empreendimento de um prolongado ciclo de paralisações e incertezas.
O atraso da CTT, contudo, ultrapassa a produção de electricidade. A Linha de Transporte Temane-Maputo depende da entrada em funcionamento da central, enquanto o PSA também sofre impactos decorrentes da impossibilidade de aproveitar plenamente o gás destinado à geração eléctrica.
Apesar da aprovação do pacote de resgate, continuam por esclarecer publicamente os novos cronogramas, os custos adicionais resultantes da paralisação e da substituição do empreiteiro e uma data definitiva para o comissionamento.
(AIM)
Paulino Checo
