Simpósio alusivo aos 50 anos de Cooperação Moçambique e China. Foto de Carlos Júnior
Maputo, 03 Set (AIM) – Académicos moçambicanos defendem a introdução de melhorias na estratégia de cooperação entre a República Popular da China e África, incluindo Moçambique, sublinhando a importância de aproveitar as oportunidades de investimento, tecnologia e comércio, mas também de definir prioridades próprias para garantir ganhos equilibrados.
Este foi um dos temas de debate decorreu esta quarta-feira (03), em Maputo, no simpósio que assinala os 50 anos de relações diplomáticas entre Moçambique e a China, que reuniu académicos de relações internacionais, economia e desenvolvimento da Universidade Joaquim Chissano (UJC), bem como representantes de ambos governos e estudantes.
O Vice-reitor e académico da UJC, Paulo Wache, que também participou no evento, afirma que a China deixou de ser apenas uma potência regional para se afirmar como um actor global, com capacidade para influenciar o sistema internacional.
Segundo Wache, Pequim articula o seu posicionamento através de iniciativas que combinam desenvolvimento, segurança e diálogo entre civilizações.
“A China demonstra quer e pode liderar o mundo com ideias centradas no Sul Global. Não basta ter propostas, é preciso recursos para sustentá-las, e a China dispõe de meios para implementá-las”, disse, destacando as iniciativas globais de Desenvolvimento, Segurança e Civilização lançadas entre 2021 e 2023.
Por seu turno, o académico Délio Chirindza, analisou o Fórum de Cooperação China-África (FOCAC) como um dos pilares da relação sino-africana.
O académico explicou que a plataforma, criada em 2000, reorganizou a interacção entre os dois lados, criando mecanismos estruturados de diálogo e investimento.
“África precisa do mercado chinês, dos empréstimos e dos produtos manufacturados. A China, por sua vez, necessita de matérias-primas, apoio político nas instâncias multilaterais e mercados para os seus produtos”, referiu Chirindza.
O investigador alertou que a relação ainda é assimétrica, pois “a China tem uma política clara para África, mas África ainda carece de uma política unificada para a China”.
Já o académico Nelson Cangolo, abordou as implicações da Iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” (Belt and Road Initiative – BRI) para o sistema internacional, destacando o seu carácter geoeconómico e estratégico.
“A China apresenta um conceito inovador: Usa a economia como instrumento de projecção de poder, sem recorrer à guerra, criando cadeias de valor fora do controlo ocidental e rotas alternativas que garantem segurança no comércio global”, afirmou.
Cangolo sublinhou que Moçambique integra a vertente marítima da iniciativa, com investimentos chineses nos portos da Beira e de Chongoene, considerados estratégicos.
Para o académico, o país deve aprender com a experiência chinesa sobre “autonomia estratégica” e definir claramente as suas prioridades internas para melhor aproveitar as oportunidades.
“Temos um parceiro com oportunidades, mas também com desafios. É preciso um trabalho interno consistente para sistematizar e maximizar os benefícios dessa cooperação”, concluiu.
Os académicos apontaram ainda a necessidade de garantir a sustentabilidade da dívida pública, negociar melhor o conteúdo local nos grandes projectos, reforçar a capacitação tecnológica e assegurar que a cooperação contribua para o desenvolvimento inclusivo e equilibrado.
(AIM)
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