Tropas ruandesas
Maputo, 3 Mar (AIM) – O governo dos Estados Unidos impôs sanções contra as Forças de Defesa do Ruanda (RDF) e quatro altos responsáveis ruandeses nominalmente identificados.
Um comunicado divulgado na segunda-feira pelo principal porta-voz adjunto do Departamento de Estado, Thomas Pigott, afirma que as sanções surgem em resposta ao “apoio operacional directo das RDF ao Movimento 23 de Março (M23) e seus afiliados no leste da República Democrática do Congo (RDC)”.
Em Dezembro de 2025, Trump presidiu ao que chamou de “Acordos de Washington para a Paz e Prosperidade”, assinados pelo Presidente da RDC, Felix Tshisekedi, e pelo Presidente do Ruanda, Paul Kagame.
Os rebeldes do M23 são apontados como representantes do governo ruandês, embora o Ruanda tenha negado repetidamente essa acusação.
O mais recente avanço territorial do M23 foi a tomada da cidade de Uvira, que Pigott descreveu como “uma clara violação dos Acordos de Washington”.
No comunicado, Pigott acusou o M23 de “horríveis abusos dos direitos humanos, incluindo execuções sumárias e violência contra civis, mulheres e crianças. O apoio contínuo das RDF e da sua liderança sénior permitiu ao M23 capturar território soberano da RDC e continuar estes graves abusos”.
O documento advertiu ainda que Trump está preparado para utilizar “todas as ferramentas disponíveis” para forçar o Ruanda e a RDC a respeitarem os Acordos de Washington.
Um comunicado de imprensa do Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Besant, declarou: “Esperamos a retirada imediata (da RDC) das tropas, armas e equipamento das Forças de Defesa do Ruanda.”
As sanções norte-americanas são impostas pelo Escritório de Controlo de Activos Estrangeiros (OFAC) e normalmente assumem a forma de congelamento de activos e restrições comerciais. Assim, quaisquer bens detidos pelas RDF nos Estados Unidos poderão ser apreendidos.
O governo ruandês criticou o decreto de sanções, classificando-o como tendencioso. Argumentou que a medida “visa apenas uma das partes” dos Acordos de Washington e deturpa o conflito no leste da RDC.
Num comunicado divulgado na terça-feira, o governo ruandês sustentou que o governo congolês e a sua coligação continuaram ataques com drones e ofensivas terrestres, e falharam em pôr termo ao apoio estatal a grupos hostis, conforme exigido. Kigali alegou ainda que a alegada coligação da RDC inclui mercenários estrangeiros e as FDLR (Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda), consideradas herdeiras das forças armadas genocidas do regime derrubado pela Frente Patriótica Ruandesa, liderada por Kagame, em 1994.
Esta disputa poderá afectar Moçambique, uma vez que o Ruanda é o principal aliado do país no combate aos terroristas apoiados pelo Estado Islâmico na província de Cabo Delgado, no norte, e porque empresas norte-americanas são investidores-chave na indústria de gás natural moçambicana.
Entre os quatro oficiais ruandeses mencionados no decreto de sanções está o Chefe do Estado-Maior das RDF, Vincent Nyakarundi. Nyakarundi visitou as tropas ruandesas em Cabo Delgado no dia 26 de Fevereiro. Deslocou-se também à capital provincial, Pemba, onde se reuniu com o Comandante do Exército moçambicano, e seguiu depois para Mocímboa da Praia, quartel-general das forças ruandesas na província.
Ainda não é claro se as sanções norte-americanas terão efeitos indirectos sobre Moçambique. Até ao momento, o país tem sido cauteloso, evitando posicionar-se entre o Ruanda e a RDC.
(AIM)
Pf/sg
