Maputo, 10 de Set (AIM) – As barragens de Moamba Major e Mapai poderão representar uma nova frente de defesa da região sul de Moçambique contra cheias e secas, mas a sua concretização depende de um investimento estimado em cerca de 1,5 mil milhões de dólares norte-americanos.
A informação foi avançada pelo Director-geral da Administração Regional de Águas do Sul (ARA-Sul), Edgar Chongo, em entrevista à AIM, explicando que os dois projectos continuam sem financiamento assegurado e estão a ser promovidos junto de potenciais parceiros.
“A questão principal é o investimento, é o custo do investimento. Se trata de infra-estruturas de grande dimensão, cuja implementação exige alguma robustez financeira”, disse Chongo à AIM,
Dos dois projectos, Moamba Major é estimado em cerca de 500 milhões de dólares, enquanto a barragem de Mapai poderá custar mil milhões de dólares ou pouco mais.
Mais do que grandes obras de engenharia, Chongo olha para as barragens como instrumentos para responder a problemas que afectam directamente a vida das populações, nomeadamente, a insuficiente água, cheias recorrentes e períodos de seca cada vez mais difíceis de prever.
Com capacidade projectada para armazenar 780 milhões de metros cúbicos de água, Moamba Major é apresentada pela ARA-Sul como uma infra-estrutura estratégica para garantir o abastecimento de água ao Grande Maputo a longo prazo e, simultaneamente, reforçar a resiliência climática no Baixo Incomáti.
O projecto não é novo. Os estudos existentes estão actualmente a ser actualizados, incluindo o próprio desenho da barragem. A previsão é de que esta actualização esteja concluída até início do próximo ano, altura em que deverá haver maior precisão sobre o custo final da obra.
Segundo a explicação da fonte, a barragem dos Pequenos Libombos, construída em 1987 para responder às necessidades de abastecimento do Grande Maputo, foi concebida numa realidade demográfica muito diferente da actual. Quase quatro décadas depois, a população cresceu significativamente e a capacidade daquela infra-estrutura já não consegue, por si só, acompanhar a procura.
Refere que, já foram procuradas alternativas, incluindo a barragem de Corumana, mas esta já está comprometida com o abastecimento de sectores como o açucareiro e outras fontes de consumo. É neste cenário que Moamba ressurge com peso. Segundo Chongo, a nova barragem deverá assegurar, em articulação com os Pequenos Libombos, uma disponibilidade de água mais segura e sustentável para o Grande Maputo.
Mas a importância da infra-estrutura vai além de Grande Maputo. A sua localização e capacidade permitirão também contribuir para a gestão das cheias no Baixo Incomáti, reduzindo o impacto dos caudais extremos.
Se Moamba Major tem uma componente decisiva no abastecimento de água, Mapai surge sobretudo como uma resposta estrutural à vulnerabilidade do vale do Limpopo. A barragem deverá criar capacidade adicional de armazenamento e ajudar a controlar os caudais do rio, reduzindo a exposição das populações às cheias e garantindo água em períodos de seca.
Actualmente, o Rio Limpopo, não dispõe de uma barragem capaz de regular os seus caudais. As águas provenientes dos países a montante entram no sistema e seguem pelo rio com reduzida capacidade de regulação.
“As cheias que vêm dos países que partilhamos o rio Limpopo têm passagem livre. Portanto, a barragem irá ajudar a fazer esta regulação”, explicou.
Segundo Chongo, é esta capacidade de regularização que poderá fazer a diferença para milhares de pessoas que vivem e produzem nas zonas vulneráveis às cheias do Limpopo. Mesmo com intervenções nos diques de defesa, a ARA-Sul entende que essas obras, embora necessárias, não são suficientes para garantir uma verdadeira resiliência climática.
A dimensão financeira de Mapai não é, contudo, o único obstáculo à sua concretização. O projecto poderá afectar cerca de 21 comunidades, o que implica a preparação e execução de processos de reassentamento, aumentando a complexidade social, técnica e financeira da obra. Chongo reconhece que esta conjugação de factores tem sido um dos principais entraves ao avanço do projecto.
“Quando falamos da barragem de Mapai, já estamos a falar de cerca de mil ou pouco mais de mil milhões de dólares. Falamos de reassentamento de cerca de 21 comunidades que estão em zonas que o projecto poderá afectar”, afirmou.
Apesar de Moamba Major e Mapai ainda não terem fundos assegurados para a construção, a ARA-Sul continua a apresentar os projectos a potenciais parceiros. A estratégia passa por divulgar as infra-estruturas, recolher contribuições técnicas e financeiras e estabelecer contactos que possam abrir caminho à mobilização de recursos.
Para a ARA-Sul, Moamba Major e Mapai devem ser vistas no contexto mais amplo da estratégia de resiliência climática do país.
Chongo explica que esta resiliência assenta em duas grandes frentes, medidas não estruturais, como sistemas de aviso e monitoria, e medidas estruturais, como a construção de barragens.
Os sistemas de alerta permitem avisar atempadamente as populações quando se aproximam cheias e acompanhar situações de seca. As barragens, por seu lado, permitem armazenar água, regular caudais e reduzir a exposição das populações aos extremos hidrológicos.
Numa abordagem mais ampla, a situação actual das barragens da região sul deve ser analisada, segundo Chongo, tendo em conta a crescente pressão sobre os recursos hídricos e a ocorrência de fenómenos climáticos extremos. A estratégia da ARA-Sul passa, assim, por combinar infra-estruturas existentes, reabilitação, novas barragens, monitoria hidrológica e sistemas de alerta.
A ARA-Sul está a apostar na transformação digital e na instalação de sistemas modernos de monitoria, incluindo estações automáticas e telemétricas, capazes de transmitir dados em tempo útil.
(AIM)
Paulino Checo
