Maputo, 11 de Set (AIM) – O Governo, através Administração Regional de Águas do Sul (ARA-Sul), vai investir cerca de 4 milhões de dólares na reabilitação da barragem de Massingir, na sequência das cheias registadas este ano no rio dos Elefantes, que obrigaram, pela primeira vez na história da infra-estrutura, ao accionamento automático do seu descarregador de cheias auxiliar.
A informação foi avançada à AIM pelo Director-geral da ARA-Sul, Edgar Chongo, que explicou que a intervenção em curso contempla a reposição dos blocos de betão do sistema de descarga de emergência e a substituição de equipamentos eléctricos.
“Estamos a fazer a reposição dos blocos de betão, em Massingir, e também a fazer a reposição dos equipamentos eléctricos. Estamos a falar de um investimento aproximado de 4 milhões de dólares”, disse Chongo à AIM.
A intervenção surge depois de a barragem ter enfrentado, este ano, a maior cheia registada no rio dos Elefantes nos últimos anos. Segundo o Director-geral da ARA-Sul, a magnitude do caudal proveniente dos países a montante levou ao funcionamento simultâneo dos principais órgãos de descarga da barragem, até ser necessário accionar o mecanismo de emergência.
Massingir dispõe de três níveis de descarga e segurança. O primeiro é o descarregador de fundo, utilizado para responder às necessidades normais de disponibilização de água. Em situações de cheia, entra em funcionamento o descarregador de cheias. Existe ainda um terceiro mecanismo, o descarregador de cheias auxiliar, concebido como último estágio de segurança da barragem.
Este último sistema possui módulos metálicos concebidos para serem removidos automaticamente quando o nível e a magnitude da cheia atingem níveis extremos. Foi precisamente este mecanismo que entrou em funcionamento durante as cheias deste ano.
“O descarregador de fundo estava a operar no seu máximo, o descarregador de cheias estava a operar no seu máximo, mas o caudal que vinha dos países a montante ainda era alto. E aí accionou o descarregador de emergência”, explicou Chongo.
O accionamento automático do descarregador auxiliar ocorreu pela primeira vez desde a construção da barragem. O episódio coincidiu com a maior cheia já registada no rio dos Elefantes, evidenciando a dimensão do fenómeno.
Chongo esclareceu, contudo, que o accionamento do sistema não representa, por si só, uma falha da barragem. Pelo contrário, trata-se de um mecanismo projectado precisamente para proteger a infra-estrutura em situações extremas.
Os módulos são concebidos para serem arrancados automaticamente quando a pressão da água ultrapassa determinados níveis. Caso isso não aconteça e a cheia continue a subir, a água poderá passar por cima da estrutura, provocando erosão e, em cenário extremo, comprometendo a própria barragem.
“É por isso que ela está desenhada justamente para entrar em acção”, sublinhou.
A ARA-Sul já iniciou a reposição dos componentes afectados e tem um empreiteiro mobilizado no local. A intervenção incide, numa primeira fase, sobre os blocos de betão que foram removidos pelo sistema de emergência, bem como sobre os equipamentos eléctricos.
Persistem, entretanto, outros desafios técnicos. Entre eles estão os canais de restituição a jusante da barragem, cuja capacidade e necessidades de intervenção ainda terão de ser avaliadas através de estudos específicos.
As lições das cheias deste ano poderão também resultar no reforço da segurança de outras infra-estruturas hidráulicas da região sul. Na barragem de Corumana, que actualmente não dispõe de um descarregador de emergência semelhante ao de Massingir, a ARA-Sul prevê a construção de um sistema com a mesma finalidade.
Apesar dos desafios impostos pelas cheias e pela possibilidade de fenómenos climáticos extremos, a situação de armazenamento das principais barragens da região sul é considerada satisfatória.
Segundo Chongo, a cerca de 30 dias do início da próxima época chuvosa, as barragens dos Pequenos Libombos e de Corumana apresentavam níveis de armazenamento próximos de 90 por cento, enquanto Massingir registava mais de 70 por cento.
“Temos um nível satisfatório, bastante satisfatório”, garantiu.
Com estes níveis de armazenamento, a ARA-Sul considera que existe água suficiente para responder às necessidades das próximas épocas. Ressalvando, contudo, que a situação poderá depender da intensidade e, sobretudo, da duração de um eventual episódio de El Niño.
Se o fenómeno for severo, mas de curta duração, a situação deverá permanecer controlada. Um El Niño severo e prolongado, por outro lado, poderá pressionar as reservas disponíveis, uma vez que as barragens possuem capacidade limitada e dependem da duração do período de escassez. Ainda assim, a perspectiva para o curto e médio prazo é positiva.
“Mas para o próximo ano, os próximos dois anos, estamos tranquilos”, afirmou.
Para a ARA-Sul, um dos maiores desafios na gestão de cheias não está apenas relacionado com a precipitação registada em Moçambique, mas com o escoamento proveniente dos países situados a montante das principais bacias hidrográficas.
A região dispõe de estações de monitoria ao longo da sua rede para acompanhar a evolução dos níveis e caudais. Contudo, a eficácia do sistema depende igualmente da troca de informação com os países vizinhos. A conjugação dos dados provenientes dos países a montante com a monitoria interna permite melhorar a capacidade de antecipação e comunicação dos riscos associados às cheias.
“O maior risco é o escoamento que vem dos países a montante”, explicou Chongo.
Perante a crescente ocorrência de eventos extremos, a ARA-Sul está também a modernizar os seus sistemas de monitoria. A instituição está a apostar na instalação de estações telemétricas automáticas, capazes de transmitir dados em tempo útil e reduzir a dependência da leitura manual dos níveis de água.
O sistema tradicional baseava-se na leitura das réguas hidrométricas e posterior transmissão dos dados por rádio. Este modelo, segundo Chongo, apresenta limitações precisamente quando ocorre uma cheia de grande magnitude, uma vez que pode tornar-se perigoso ou mesmo impossível para os técnicos aproximarem-se dos locais de medição.
“O upgrade é permanente, porque dependendo da magnitude da cheia, as próprias estações telemétricas também são afectadas, e é preciso sempre encontrar mecanismos resilientes de instalar e garantir que temos comunicação em tempo útil”, disse.
(AIM)
Paulino Checo
