Maputo, 02 de Out (AIM) – Sofala registou uma redução de 6,7% na desnutrição crónica grave nas zonas abrangidas pelo programa multissectorial de nutrição, um resultado que reforça os sinais de progresso de Moçambique no combate à desnutrição infantil e evidencia o impacto da conjugação de esforços entre o Governo, parceiros de cooperação e comunidades.
O resultado foi apresentado durante um workshop de avaliação do programa multissectorial de nutrição realizado na província de Sofala, onde a União Europeia destacou os avanços alcançados através de intervenções integradas nas áreas de saúde, nutrição, água, saneamento e higiene.
Os dados mais recentes disponíveis mostram que a evolução registada em Sofala ocorre num contexto de redução gradual da desnutrição crónica a nível nacional.
De acordo com dados baseados no Inquérito Demográfico e de Saúde (IDS) 2022–23, a proporção de crianças menores de cinco anos com desnutrição crónica diminuiu de 43%, em 2011, para 37%, em 2022–23.
Apesar da melhoria, o problema continua a atingir uma parcela expressiva das crianças moçambicanas.
A UNICEF classifica a desnutrição infantil como um dos principais desafios de saúde pública do país e estima que cerca de 37% das crianças menores de cinco anos sejam afectadas pela desnutrição crónica.
Em Sofala, os resultados estão associados a uma intervenção iniciada na sequência dos impactos do ciclone Idai, que atingiu severamente a província em 2019. O programa envolveu o Governo de Moçambique, a União Europeia e o UNICEF e concentrou-se em seis dos distritos mais afectados, nomeadamente, Dondo, Nhamatanda, Muanza, Buzi, Gorongosa e Chibabava.
Um balanço divulgado pelo UNICEF em Novembro de 2025 indica que as áreas abrangidas pelo programa registaram uma redução de até 35% na desnutrição crónica entre crianças menores de cinco anos. Durante a implementação, cerca de 400 mil crianças tiveram acesso a serviços essenciais de nutrição, enquanto 650 mil pessoas passaram a ter acesso a água potável e mais de 37 mil famílias foram certificadas como “famílias modelo”, por adoptarem boas práticas de saúde, higiene e nutrição.
A experiência de Sofala evidencia, assim, a importância de uma abordagem que não se limite ao tratamento da desnutrição. O programa combinou cuidados de saúde e nutrição com acesso à água, saneamento, higiene e promoção de mudanças de comportamento, procurando atacar alguns dos factores que contribuem para a desnutrição infantil.
O combate à desnutrição faz parte das prioridades nacionais. Em Junho de 2025, Moçambique lançou oficialmente a Política e Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional 2024–2030 (PESAN), concebida para orientar uma resposta multissectorial ao problema.
A estratégia prevê investimentos articulados nas áreas de saúde, nutrição, água e saneamento, educação e protecção social, com atenção particular às crianças pequenas, adolescentes e mulheres em idade reprodutiva.
O Governo também tem reforçado a prevenção e o tratamento da desnutrição aguda através do Programa de Reabilitação Nutricional. Segundo a UNICEF, a prevenção e o tratamento da desnutrição aguda foram ampliados a nível nacional, ao mesmo tempo que se procura fortalecer o planeamento e a coordenação das intervenções nutricionais.
Os esforços ganharam dimensão adicional em 2025. Segundo dados da UNICEF, mais de 815 mil crianças menores de cinco anos foram rastreadas para detectar casos de desnutrição em várias províncias afectadas por conflitos, ciclones e seca. Mais de 27 mil crianças com desnutrição aguda grave foram admitidas para tratamento, enquanto cerca de 852 mil crianças receberam suplementação de vitamina A.
A redução registada em Sofala representa um avanço, mas os dados nacionais mostram que a desnutrição continua a afectar uma em cada três crianças menores de cinco anos. A própria UNICEF alerta que persistem desafios relacionados com pobreza, insegurança alimentar, acesso a serviços básicos, saneamento, choques climáticos e conflitos.
A experiência de Sofala ganha relevância numa altura em que a redução observada nas áreas abrangidas pelo programa demonstra que intervenções coordenadas entre Governo, parceiros internacionais e comunidades podem produzir resultados mensuráveis.
Para Moçambique, o desafio passa agora por consolidar estes ganhos e ampliar as intervenções para que a redução da desnutrição deixe de ser apenas um resultado localizado e se traduza numa melhoria sustentada do estado nutricional das crianças em todo o país.
A meta nacional é reduzir a prevalência da desnutrição crónica infantil para menos de 30% até 2030, mantendo a nutrição como uma prioridade da agenda de desenvolvimento.
(AIM)
Paulino Checo
