Ministra dos Combatentes, Nyeleti Mondlane
Maputo, 28 Jan (AIM) — Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) estão a avançar na produção de uma narrativa histórica própria e descolonizada sobre a Luta de Libertação, através de uma obra conjunta que irá retratar os processos de independência de Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, e São Tomé e Príncipe.
A iniciativa está a ser consolidada no 4º Seminário Metodológico sobre a Escrita da História da Luta de Libertação dos PALOP, que decorre em Maputo e prevê a publicação de três volumes dedicados à memória comum das lutas anticoloniais.
Na abertura do evento, a ministra dos Combatentes, Nyeleti Mondlane, afirmou que o projecto representa um acto de soberania histórica, permitindo que os PALOP escrevam a sua história na primeira pessoa.
“Durante décadas, a nossa trajectória histórica foi narrada por olhares externos, frequentemente através de prismas que não faziam justiça à complexidade e à heroicidade das nossas lutas”.
“Fomos objecto de análises que, mesmo quando bem-intencionadas, partiam de pressupostos eurocêntricos e não captavam a essência profunda do que representou para os nossos povos a reconquista da sua dignidade e soberania”, disse.
Segundo a governante, a iniciativa constitui uma afirmação clara de autonomia narrativa dos povos africanos.
“Este projecto é uma declaração inequívoca de que somos nós — os povos africanos — os donos da nossa própria narrativa. Este projecto diz ao mundo que chegou o tempo de contarmos a nossa história com a nossa própria voz, a partir das nossas próprias fontes, e segundo a nossa própria perspectiva.”
Por seu turno, o antigo Presidente da República e veterano da Luta de Libertação Nacional, Joaquim Chissano, destacou o carácter conjunto das lutas nos PALOP.
“Essa luta foi conjunta. É impossível falarmos da luta de Moçambique contra o colonialismo sem falarmos da luta em Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Por isso, uma colectânea sobre a luta em Moçambique não faria sentido se não falasse dos outros PALOP”, afirmou.
Chissano sublinhou ainda que a luta comum teve impactos para além do continente africano, referindo que esta “também contribuiu para a libertação do povo português do regime fascista”.
Ao abordar as razões da luta armada, esclareceu que esta não resultou de uma escolha voluntária dos povos africanos.
“Nós estávamos a defender-nos contra uma guerra que era contra nós, o povo moçambicano. Portanto, tínhamos que nos defender e criamos um Departamento de Defesa para a segurança do nosso povo.”
Acrescentou que Moçambique rejeitou a lógica belicista do regime colonial.
“Porque nós não estávamos a criar o Ministério de Guerra, mas um Ministério para nos defendermos e chamámos Departamentos de Segurança e Defesa”.
Segundo Chissano, a luta armada foi uma consequência da intransigência colonial e um meio necessário para alcançar a independência.
“Definiram porquê lutámos e contra quem lutámos. E quando diziam para quê lutámos, a resposta era: para a independência nacional. Contra quem lutámos, respondiam, claramente, contra o colonialismo português. Não era contra os brancos, era contra o colonialismo português”, concluiu.
O Projecto de Escrita da História da Luta de Libertação Nacional dos PALOP foi lançado sob a égide dos Chefes de Estado e já contou com seminários realizados em Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau. O encontro de Maputo decorre até 30 de Janeiro, com vista à consolidação do primeiro volume e à definição do cronograma dos volumes seguintes.
(AIM)
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