Maputo, 04 Nov (AIM) – Os estrangulamentos nas fronteiras, a demora nos procedimentos aduaneiros e as limitações na articulação entre os diferentes meios de transporte constituem alguns dos principais constrangimentos à competitividade dos corredores logísticos de Moçambique, segundo a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA).
O vice-presidente da CTA, Onório Boane, considera que a capacidade dos portos nacionais e a localização geográfica estratégica do país não são suficientes para consolidar Moçambique como porta de entrada comercial da África Austral, defendendo maior eficiência operacional, integração transfronteiriça e investimento em infra-estruturas e serviços logísticos.
Intervindo esta quarta-feira, em Maputo, na primeira edição da TRANS-LOG MOZ, subordinada ao tema “Da Costa aos Corredores: Investir em Moçambique como Porta de Entrada Comercial Regional e Centro de Trânsito”, Boane destacou a necessidade de reduzir os tempos de trânsito das mercadorias, aumentar a capacidade ferroviária e eliminar os pontos de congestionamento nas fronteiras.
Segundo o dirigente, a diferença entre a capacidade actual das infra-estruturas logísticas e o seu potencial de utilização representa oportunidades de investimento, mas exige intervenções coordenadas nos corredores de Maputo, Beira e Nacala, sobretudo na ligação aos mercados do hinterland.
Boane apontou que um porto pode dispor de capacidade para movimentar grandes volumes de carga, mas perde competitividade quando as mercadorias ficam retidas nos terminais ou enfrentam procedimentos aduaneiros demorados. Da mesma forma, a disponibilidade de capacidade ferroviária não resolve os problemas de circulação quando faltam equipamentos e condições operacionais do outro lado da fronteira.
“A competitividade de um corredor não se mede apenas pela capacidade do seu porto, mas pelo custo, tempo e previsibilidade com que a mercadoria chega ao destino final”, afirmou.
Para ultrapassar estes constrangimentos, a CTA defende a integração efectiva dos três principais corredores logísticos nacionais, através do reforço das ligações ferroviárias, rodoviárias e fronteiriças, bem como o desenvolvimento de portos secos, terminais interiores, infra-estruturas de armazenagem, cadeias de frio e plataformas de distribuição.
A organização empresarial considera igualmente necessária a simplificação dos procedimentos fronteiriços, a digitalização dos serviços através de uma Janela Única Logística e o aproveitamento da cabotagem como alternativa complementar ao transporte rodoviário.
No domínio do investimento, Boane destacou a necessidade de mobilizar capital privado e financiamento de instituições de desenvolvimento, tendo em conta as limitações da capacidade de financiamento público.
Entre as oportunidades identificadas pela CTA constam investimentos em terminais logísticos, armazenagem de cereais, instalações de frio, equipamentos portuários, transporte ferroviário, manutenção, sistemas de rastreamento digital e serviços especializados.
O dirigente defendeu, neste contexto, a criação de condições para que os projectos apresentados aos investidores disponham de estudos de viabilidade, procura identificada, necessidades de capital definidas e modelos de exploração claros.
“Precisamos de menos projectos anunciados e de mais projectos preparados para financiamento e execução”, sublinhou.
A CTA defende ainda que os investimentos nos corredores logísticos devem assegurar uma maior participação das empresas nacionais nas cadeias de fornecimento, manutenção, engenharia, tecnologia e prestação de serviços, de modo a ampliar a criação de emprego, desenvolver competências e aumentar o valor acrescentado gerado no país e na região.
Boane considerou igualmente necessário reforçar a dimensão industrial dos corredores, para que estas infra-estruturas deixem de funcionar essencialmente como vias de passagem de matérias-primas e de entrada de produtos manufacturados provenientes do exterior.
Como proposta para operacionalizar estas prioridades, a CTA defende a elaboração de um Roteiro de Investimento em Transportes e Logística 2026–2030, com uma carteira de projectos prioritários, identificação dos principais estrangulamentos, compromissos de integração transfronteiriça e metas de redução dos custos logísticos.
O instrumento deverá incluir mecanismos de acompanhamento dos investimentos e da respectiva execução.
Dados apresentados por Boane indicam que os portos moçambicanos movimentaram cerca de 66,5 milhões de toneladas de carga em 2024, enquanto o Porto de Maputo atingiu um recorde de 32 milhões de toneladas em 2025.
Para a CTA, estes indicadores demonstram a relevância dos activos logísticos nacionais, mas a consolidação de Moçambique como plataforma comercial regional depende também da eficiência operacional, da previsibilidade regulatória e da capacidade de articulação com os países vizinhos.
A organização manifestou disponibilidade para trabalhar com o Governo, os países da região, as instituições financeiras e os operadores do sector na identificação e implementação de soluções destinadas a reforçar a competitividade dos corredores logísticos.
(AIM)
Paulino Checo
