Maputo, 22 Abr (AIM) – Em Moçambique, mais de 5,5 milhões de crianças encontram-se em risco elevado de serem afectadas por ciclones tropicais, num contexto em que cerca de 70 por cento das escolas estão localizadas em zonas de alto risco de cheias e tempestades
A informação consta de um novo relatório conjunto do UNICEF e da consultora Dalberg, que analisa os impactos das mudanças climáticas na educação na África Oriental e Austral e estima perdas crescentes no acesso à educação e na qualidade da aprendizagem.
As declarações são de Etleva Kadilli, directora regional do UNICEF para a África Oriental e Austral. “As crianças estão a pagar o preço mais alto por uma crise que não criaram”, afirmou, sublinhando a desigualdade estrutural dos impactos climáticos sobre os mais novos.
“Pela primeira vez, este relatório mostra a dimensão das perdas e danos relacionados com o clima na educação, mas o impacto nas crianças continua, em grande medida, invisível nas decisões de financiamento. Isto tem de mudar”, acrescentou.
O estudo indica que as catástrofes climáticas já provocaram cerca de 1,3 mil milhões de dólares em danos directos em infra-estruturas escolares na região, afectando a aprendizagem de cerca de 130 milhões de crianças.
Prevê ainda que estas perturbações possam traduzir-se em até 140 mil milhões de dólares em perdas de rendimento futuro, podendo atingir 380 mil milhões de dólares até 2050, caso os fenómenos extremos se intensifiquem e afectem até 520 milhões de estudantes.
Em Moçambique, o relatório sublinha que a concentração de escolas em zonas de risco compromete o acesso a direitos básicos como educação, saúde, água potável e saneamento.
A intensificação de ciclones, inundações e secas tem igualmente provocado deslocações de populações, aumento da desnutrição e maior exposição a doenças de origem hídrica.
Apesar da dimensão dos impactos, a educação recebe menos de 1,5 por cento do financiamento global destinado ao clima, deixando o sector vulnerável a choques recorrentes e a uma recuperação lenta das infra-estruturas.
O UNICEF defende que o reforço da resiliência das escolas representa não apenas uma medida de protecção social, mas também um investimento com elevado retorno económico, estimando que cada dólar aplicado possa gerar até 13 dólares em benefícios, através da redução de danos e interrupções e da continuidade da aprendizagem.
O UNICEF defende que, sem uma maior priorização do financiamento climático, a educação continuará a suportar o peso dos impactos climáticos, provocando perturbações repetidas.
“Temos de conceber sistemas educativos que antecipem os choques, protejam a aprendizagem precoce e fundamental e mantenham as escolas abertas. Caso contrário, o verdadeiro custo das perdas e danos climáticos será medido em potencial humano perdido”, sublinhou.
O relatório surge numa altura em que o Conselho de Administração do Fundo para a Resposta a Perdas e Danos (FRLD) se reúne em Livingstone, com apelos à integração da educação nos mecanismos de financiamento climático.
Entre as recomendações, o UNICEF defende a inclusão explícita da educação nos Planos Nacionais de Adaptação e nas Contribuições Nacionalmente Determinadas, a incorporação de riscos climáticos no financiamento interno da educação e a afectação de recursos específicos à educação nos fundos climáticos internacionais.
O documento destaca ainda impactos semelhantes na região, com inundações no Quénia, secas e conflitos na Somália e aumento de temperaturas na Etiópia a afectarem o desempenho escolar e a frequência das aulas.
O UNICEF conclui que, sem acção urgente e financiamento adequado, os impactos climáticos poderão comprometer de forma estrutural o futuro da educação em Moçambique e na África Oriental e Austral.
(AIM)
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